Instrutores de musculação dos 80s para os 30s

Nos anos 80 havia poucos ginásios. A maioria dos espaços não tinha instrutores nem personal trainers. Os donos dos ginásios faziam questão de prescrever e ensinar os movimentos. Mas… O mais importante a destacar: havia partilha entre sócios e os mais velhos ou experientes faziam questão de ensinar os iniciados. Havia pouca informação escrita, que se resumia a algumas revistas e um ou outro livro importado.

Antes de haver instrutores pagos a 15eur/h nos anos 90, houve gente que se preparou para tal, que conquistou reputação pelo próprio treino, através do estudo de material importado, de inúmeras conversas com atletas e treinadores, pela análise de diários de treino, através de longas viagens para observar e contactar pessoas de outros países com uma gigante dose de humildade e curiosidade infantil. Eram tempos onde o dinheiro não abundava, fraca tecnologia, instalações em caves sem luxo, com pouco equipamento, efetuando atividades mal vistas pela sociedade, mas com menos distrações para o mais importante: treinar, agir, sair da zona de conforto e descobrir.

Inúmeros profissionais se esforçaram por adicionar valor ao mercado para se mostrarem necessários e indispensáveis para o crescimento e funcionamento dos ginásios. Deu-se um boom destes espaços.

Da mesma forma, nos últimos 20 anos houve um esforço por parte de donos de ginásios, professores e personal trainers em retirar valor ao mercado funcionando com ações de guardas de máquinas, arrumadores de pessoas, contadores de repetições, fomentadores de intimidades, reis da teoria e rececionistas, os quais ajudados pela revolução da informação, criaram uma percepção baixa de valor no mercado.

O desinvestimento nas competências sociais, nas relações humanas, na comunicação direta, na proxemics, na curiosidade, no desenvolvimento pessoal, nas dinâmicas de grupo dentro das salas de atividade, no foco nas necessidades do cliente e na responsabilização técnica dos programas de treino, levou a uma auto-desvalorização do profissional e consequente desvalorizar dos mesmos por parte dos gestores e dos clientes.

Assim se chega a um momento mais complicado da automatização máxima, da crescente padronização dos processos de funcionamento dos ginásios onde a inteligência artificial suga cada vez mais o valor de todos os instrutores, sobretudo daqueles que andavam limitados a prescrever treinos, suplementos e planos alimentares a valores bem por cima dos 150 euros. Os clientes são lançados para os ginásios com um plano, uma receita que vai ser “cozinhada” por um instrutor que nunca idealizou tal coisa e que na generalidade é pouco experiente e ainda lhe falta muita formação profissional.

Inverter a situação não será fácil. Mas não passa pela teoria ineficaz já conhecida, nem pelos programas de treino que levam os clientes a frequentar os ginásios com médias abaixo de 0,8 vezes por semana.

Inverter a situação não passa por tratar as pessoas com indiferença quando estas não compram personal training, nem assustar os desgraçados pelo mecanismo dor/prazer durantes avaliações da condição física das quais já sabemos antecipadamente os resultados.

Inverter a situação não passa por mudar exercícios a cada treino que passa ou mudar o número de repetições efetuadas com a ferramenta da moda à espera que ocorram milagres.

Para os anos 30s temos de percorrer um caminho muito focado em gerar atenção, liderando pelo exemplo, em criar rapport com os clientes, gerar confiança nas relações, fomentar relações interpessoais entre sócios de forma a criar tribos, elaborar programas de treino honestos para o mundo real, cheio de indivíduos que dormem pouco, trabalham muito, passam muito tempo sentados, têm filhos, stress com fartura e se fartam de dizer: – Não consigo!

Pensa nisso!


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