Análise Fatorial Confirmatória do Exercise Motivation Inventory-2 (EMI-2) e Validação de uma Versão Reduzida

Paulo Sena, Susana Alves, Pedro Baptista, Teresa Bento, Luís Cid e João Moutão
Paulo Sena, Susana Alves, Pedro Baptista, Teresa Bento, Luís Cid e João Moutão

Atualmente surge, cada vez mais, uma necessidade de compreender quais as razões para o baixo número de praticantes de exercício físico na União Europeia, sendo que a percentagem de praticantes de exercício físico com regularidade encontra-se um pouco abaixo dos 30%. No seguimento deste raciocínio, centra-se assim uma enorme curiosidade em desvendar como se poderá compreender os motivos para esta pouca prática na população do velho continente ou, até, qual o motivo que direciona, de um forma mais preponderante, o praticante de exercício físico a fazer tal atividade.

       O Exercise Motivation Inventory 2 é um instrumento validado em vários países e para várias línguas e tem sido um dos principais questionários a ser utlizado para desvendar quais os principais motivos para a prática de exercício, sendo assim direcionado para o contexto dos ginásios. Este instrumento foi criado em 1997 por Ingledew e Markland e é uma versão melhorada de um Exercise Motivation Inventory que se apresentava como um instrumento debilitado, tendo sido acrescidos dois motivos e validado no seu construto. Este novo instrumento é composto por 51 itens, 14 fatores e 5 dimensões (motivos psicológicos, motivos interpessoais, motivos relacionados com o corpo, motivos de condição física, motivos de saúde), foi validade em termos da sua invariância entre vários grupos como o género e o fato de ser praticante ou não praticante. Tendo em conta estes aspetos pode-se referenciar este questionário como bastante abrangente (avalia vários motivos e vários grupos diferentes) e internacional (aplicável em vários países e línguas).

Pode-se assim afirmar que esta problemática demonstrada na União Europeia pode ser combatida e estudada recorrendo a este questionário, desvendando-se assim duas principais problemáticas na sua aplicação que se transformam nas hipóteses dos dois estudos que compõem esta tese: validação através de uma análise fatorial confirmatória para a população portuguesa e necessidade de redução da extensão do questionário de forma a torna-lo mais fácil e rápido de aplicar.

O primeiro estudo tem como objetivo validar o Exercise Motivation Inventory 2 numa versão orientada para a população portuguesa. Este questionário é constituído por 5 dimensões, 14 fatores e 51 itens. Esta validação é feita por intermédio de uma Análise Fatorial Confirmatória à estrutura apresentada no questionário do EMI-2, tendo em conta os valores de ajustamento do modelo e a aproximação destes aos parâmetros sugeridos pelos autores de referência (CFI e NNFI ≥ .90; RMSEA ≤ 0.06; SRMR ≤ .08). Para este estudo foi tida em conta uma amostra de 2266 indivíduos praticantes de fitness, de ambos os géneros, com uma média de idades de 35.95 anos (± 13,08). Para validação deste questionário foi necessário dividi-lo por dimensões e fatores para aplicar uma AFC de forma aos parâmetros se ajustarem, também foi necessário ajustar alguns pesos fatoriais e igualar a variância em alguns erros associados aos itens para ajustar fatores mais problemáticos, bem como a criação de correlações. Por fim pode-se afirmar que os valores retirados das AFC feitas aos fatores aceitam-se de forma separada, concretizando-se assim o objetivo deste estudo apesar de ser necessário salientar alguns itens e fatores problemáticos que poderiam ser eliminados.

No segundo estudo o objetivo foi criar uma nova versão do Exercise Motivation Inventory-2p. Este objetivo surge após se verificar a extensão deste questionário (é constituído por 5 dimensões, 14 fatores e 51 itens) para a aplicação no contexto do ginásio, perdendo assim alguma da sua utilidade e qualidade. Para este estudo foi tida em conta uma amostra de 2266 indivíduos praticantes de fitness, de ambos os géneros, com uma média de idades de 35,95 anos (±13,08). Esta redução é baseada na seleção dos itens mais fortes dentro de cada fator, previamente analisado através de uma Análise Fatorial Exploratória, de onde surgiria uma versão de apenas 3 fatores e 14 itens. Seguido de uma Análise Fatorial Confirmatória à estrutura apresentada nesta nova versão do questionário do EMI-2p, tendo em conta os valores de ajustamento do modelo (CFI, NNFI, SRMR, RMSEA, RMSEA IC 90%) e a aproximação destes aos parâmetros sugeridos pelos autores.    Para que seja possível esta redução foram experimentados 4 modelos diferentes com os itens previamente selecionados, após uma AFC verificou-se a necessidade de analisar os fatores em separado, chegando assim à conclusão de ser possível efetuar a redução do EMI-2p mantendo-se a sua consistência e o que pretende avaliar.

Como conclusão destes estudos tenho a referenciar que este tipo de análises nem sempre é fácil, sendo necessário enumeras tentativas na utilização do software AMOS 20.0 de forma a que os valores de corte aceitáveis sejam atingidos. Apesar de apresentar algumas reservas relativas a alguns valores apresentados no primeiro estudo posso afirmar que os objetivos foram atingidos e que agora a população portuguesa detém mais um instrumento que possa avaliar os cinco principais motivos e os respetivos catorze motivos nele inseridos e outro novo instrumento que consegue avaliar catorze sub-motivos de uma forma mais rápida.

Recomenda-se, contudo, mais investigação nesta área que tem imenso por onde desenvolver e um mercado excelente a explorar. Também se recomenda que um Psicólogo do Exercício consiga o seu espaço no ginásio de forma a conseguir intervir com os clientes do ginásio e colaborar com os instrutores e restante staff que o compõem. Para além destas recomendações, é importante referir que este questionário (versão reduzida do EMI-2p) deverá ser aplicado e que seja feita uma nova AFC de forma a compreender se há alterações nos valores de corte tendo em conta a análise feita nestes estudos.

Em termos práticos, este questionário poderá ser extremamente útil nos ginásios de forma a compreender os motivos que levam o cliente ao ginásio, tal como será fundamental transformar essa compreensão numa nova forma de intervenção junto do mesmo. A aplicação deste questionário poderá ser feita no momento da avaliação física inicial do cliente, onde o Psicólogo do Exercício, que estiver afiliado ao ginásio, poderá ter uma breve intervenção e aplicar o questionário para desvendar os motivos que levam o cliente a estar onde está no preciso momento.

Pedro Baptista

pedro_paluxa@hotmail.com

Mestre em Psicologia do Desporto e Exercício pela ESDRM.

Luís Cid

luiscid@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

João Moutão

jmoutao@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

Motivos para a Prática de Exercício: tradução e validação do Goal Content for Exercise Questionnaire

Hugo Louro, Paulo Sena, Susana Alves, Luís Cid, Eduardo Ramos e João Moutão
Hugo Louro, Paulo Sena, Susana Alves, Luís Cid, Eduardo Ramos e João Moutão

O estudo da motivação para o exercício físico tem obtido um incremento de investigação nos últimos anos. Entre as teorias mais utilizadas, encontra-se a Teoria da Autodeterminação uma das mais importantes devido à sua aproximação com a prática, flexibilidade e fiabilidade. Dentro da Teoria da autodeterminação encontra-se a subteoria do conteúdo dos objetivos que carateriza o conteúdos dos objetivos para a prática de atividade física como intrínsecos ou extrínsecos.

Funciona como potenciador do crescimento pessoal dos praticantes, aumenta a satisfação pessoal e o bem-estar e culmina com o crescimento da indústria.

Esta investigação centra-se na tradução, adaptação e validação do Goal Content for Exercice Questionnaire para a população portuguesa e analisar a orientação do conteúdo dos objetivos dos praticantes portugueses de atividade física.

O GCEQ vem colmatar a ausência de instrumentos científicos nesta área e incrementar a oferta de instrumentos para o combate às barreiras e desistências, mas sobretudo à satisfação dos praticantes de atividade física em ginásios.

Na prática de exercício o conteúdo dos objetivos é fundamental para o entendimento dos reais valores do cliente face á execução e inscrição nos ginásios e para a análise pessoal e relacional.

Esse questionário para além da classificação dos objetivos categoriza anda os objetivos por fatores Intrínsecos (Afiliação Social, Manutenção da saúde e Desenvolvimento de capacidades) e fatores extrínsecos (Imagem corporal e reconhecimento de capacidades).

Permite ainda a redefinição da prática de exercício para os reais objetivos, ou seja, com estes dados obtemos uma aproximação da perceção de realidade pretendida com o “eu real”. Permite então claramente benefícios na satisfação, bem-estar, resultados ao nível do relacionamento e obtenção de resultados de forma eficiente.

Participaram no estudo 389 indivíduos praticantes de fitness (n = 171 masculino 44%, n= 218 feminino 56%), com idades compreendidas entre os 11 anos e os 75 anos de idade (M = 31.4; DP = 11.15) que frequentavam ginásios no Norte e Centro de Portugal (Aveiro 46 %; Porto 21 %; Castelo Branco 13 %; Viseu 9 % e Leiria 11 %).

Envolvidos em atividades de Cardiofitness (n = 186, 48%,) Musculação (n = 117, 30%) e Aulas de grupo (n = 85 ou seja 22 %).

Foi utilizado a versão preliminar portuguesa do Goal Content for Exercice Questionnaire (GCEQ) (Sebire et al., 2008) que se revela um questionário de 20 itens de medida que atesta a importância que as pessoas colocam nos seus esforços e na sua prática de atividade física.

Os principais resultados permitem antecipar uma relação entre o género e os motivos de afiliação social e desenvolvimento de capacidades (vocacionadas com a motivação intrínseca).

A relação entre a idade e o fator saúde indica que um dos principais fatores de adesão e manutenção na prática desportiva é a preocupação com a saúde, bem-estar e qualidade de vida.

Relativamente ao grupo de modalidades, essa escolha efetuada pelo praticante é baseada na perceção de competência sobre a realização de atividades de fitness (própria ou introjetada por terceiros).

Verificamos assim a importância da avaliação do conteúdo dos objetivos para uma máxima rentabilização de recursos, avaliação correta e coerente do real objetivo face à prática de atividade física e retenção de dados que podem ter valor da planificação de aulas e atividades.

Mas na realidade qual a implicação prática destes resultados e investigações?

Com os resultados demonstrados desta investigação e suporte na bibliografia podemos considerar extremamente importante a regulação comportamental nos ginásios e este aspeto é essencial na análise da motivação dos praticantes para a adesão e manutenção dos clientes.

Assim de forma mais prática iremos abordar e refletir sobre os processos em que a análise e avaliação do conteúdo dos objetivos possui influência na adesão e manutenção dos praticantes de forma faseada, demonstrando também a importância da Psicologia associada ao exercício físico.

  • Analisar e avaliar o praticante em relação ao contexto (ginásio):
    • Objetivos da prática;
    • Modalidades preferidas;
    • Informação básica (pessoal, experiências de prática)
  • Elaboração de planos ajustados aos dados recolhidos (objetivos, modalidades) em consonância com os instrutores, cliente e restante staff se necessário:
    • Explicação dos objetivos do plano de treino, do caminho a prosseguir.
    • Permitir ao cliente participar no desenho do plano de treino (autonomia, satisfação e responsabilidade)
    • Elaboração e implementação do plano de treino;
    • Objetivo a curto, médio e longo prazo a atingir;
    • Intervenção regular, assertiva e acompanhada ao nível da comunicação dos instrutores;
  • Adaptação do contexto ao objetivo do cliente:
    • Grupos de prática por conteúdo dos objetivos;
    • Definição de objetivos individuais por grupos de modalidade, por aula e por instrutor;
    • Avaliação constante dos objetivos e do plano traçado inicialmente;
    • Gravação de aulas para confrontação com os objetivos e plano traçado;
    • Promover a identificação com a prática e com o ginásio (reforço e valorização do esforço, das necessidades e dos objetivos)
    • Proporcionar o cumprimento do plano de objetivos.

Assim conseguimos afirmar que o conteúdo dos objetivos do cliente é proporcional com a realidade encontrada na prática, mantendo assim níveis positivos de identificação com a prática, manutenção de clientes, crescimento pessoal e comercial do ginásio, integração do comportamento desportivo do cliente e comportamento social e humano do ginásio.

Em suma, promovendo uma identificação, desenvolvemos relações.

Eduardo Ramos

eduh_ramos@hotmail.com

Mestre em Psicologia do Desporto e Exercício pela ESDRM.

João Moutão

jmoutao@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

Luís Cid

luiscid@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

Workshop em Rio Maior

Workshop em Rio MaiorOntem realizei mais uma apresentação intitulada Ideias Para Manter os Seus Clientes: perceber a adesão e o abandono para praticar a retenção. Desta vez decorreu em Rio Maior, na Escola Superior de Desporto que eu ainda não conhecia. Foi bem acima das minhas expectativas, com grande interesse demonstrado nas duas horas de discurso e foi assim possível perceber a dinâmica de Rio Maior, da qual eu já desconfiava. A Escola está cheia de vida!

Foto com o João Brito e o João Moutão da Escola Superior de Desporto em Rio Maior.Grande convívio e harmonia entre professores e alunos. Foi bom rever pessoas que há muito não via e conhecer pessoalmente, gente com presença forte na indústria do fitness e do desporto em Portugal. Experiência a repetir. Eis algumas fotos.

Abaixo estão alguns dos diapositivos, para fazer o download, clique aqui.