Se tivermos uma doença grave, queremos o melhor médico do mundo.

Se tivermos uma doença grave, queremos o melhor médico do mundo. Não vamos perguntar à vizinha. Então, porque acreditamos em todo e qualquer indivíduo que nos indica algo sobre exercício físico?

Validem as vossas fontes de informação:

  • Que formação técnica e profissional tem a nossa fonte de informação?
  • Quer vender-nos algum produto?
  • Quantas pessoas treinou?
  • Que tipo de pessoas treinou (atletas, idosos, sedentários…)?
  • Que experiência tem? Tem um ano repetido dez vezes, ou construiu um conhecimento sólido baseado em grandes princípios de treino.
  • Ele próprio incorporou o exercício na sua vida de forma equilibrada e foi adaptando o programa de treino ao longo dos tempos?
  • Tem muitas certezas absolutas?
  • Interessa-se por nós como pessoa?
  • As indicações que nos dá, incluem sono e alimentação?
  • Faz perguntas poderosas?

Estas são apenas algumas questões que nos deveremos colocar a nós próprios ao aceitar informação sobre exercício e estilo de vida que vem de uma fonte desconhecida. Não tem de ser perfeito, mas… Também não pode ser qualquer um. Embora (confesso), grande parte das soluções no que toca ao exercício físico estejam mesmo dentro de nós. Por vezes, apenas necessitamos de uma ajuda profissional séria e uma dose de motivação que nos faça

Como diria Arthur Jones: “Se queres aprender a treinar um cavalo de corrida… Não perguntes a um cavalo de corrida!”

Mais um corta-mato distrital em Chaves

O corta-mato não é das minhas provas favoritas. Gosto de correr e de incentivar os meus alunos a fazer o mesmo. No início, quando cheguei à região de Chaves, havia gente que não percebia o ênfase que eu dava à condição física nas minhas aulas. Os alunos a correr 1600m ou 10minutos todas as aulas, burpees, agachamentos, flexões de braços e abdominais no final, eram sempre conteúdos obrigatórios. A princípio aparecem as dores musculares, dizem que é tropa, apelidam o professor de tudo sem compreenderem os tempos que vivemos, onde o sedentarismo é a causa de morte número um em todo o mundo, a condição física permite-nos uma boa postura, permite rematar forte, passar muitas vezes sem nos cansarmos tão cedo, permite chegar onde os outros não chegam, permite manter ausência de lesão em condições difíceis, permite efectuar movimentos mais difíceis na ginástica, etc.

É também uma forma quantificável de ter intensidade de treino nas aulas de educação física de forma que sejam os próprios alunos a controlar os seus descansos, mas tendo sempre objectivos específicos a cumprir.

Os alunos compreendem melhor a forma de funcionamento das suas estruturas musculares e articulares, percebem a diferença entre trabalhar com intensidade e estar apenas de corpo presente. Sentem dores musculares quando fazem algo ao qual não estão habituados e vão aprendendo a elaborar o seu próprio programa de treino.

Com a obtenção de benefícios que advêm do respeito dos princípios de treino, da intensidade, da regularidade, do entendimento da utilidade do sono, da ingestão de água e nutrição apropriadas, conseguem no seu dia-a-dia sentir mais energia, melhoria no seu estado de humor, melhor auto-estima em idade de muitas dúvidas e complexos com o corpo, melhor rendimento escolar e desportivo fora da escola.

Para que se obtenham benefícios da actividade física, quer seja na escola quer seja fora dela, há um mínimo de intensidade que deverá estar presente, há um mínimo de regularidade que deverá existir para começar a apelidar a actividade física de exercício físico.

Como professores sentimo-nos orgulhosos quando os alunos adquirem novos hábitos e um estilo de vida saudável. Sim, porque os programas de educação física escolar estão muito mais preocupados com os conteúdos das modalidades mais populares e pouco preocupados em fazer com que à saída do ensino básico um aluno saiba: comer melhor, conheça a importância do sono na regeneração do corpo, saiba elaborar o seu próprio programa de treino básico e levá-lo à prática com um mínimo de correcção técnica. Parece-me que falta dar mais ênfase a esta situação. Falta que os alunos percebam os benefícios de treinar com intensidade suficiente para conseguirem resultados. É necessário que deixem o ensino básico com algo, em vez de passarem vários anos a abordar superficialmente técnicas de basquetebol, andebol e outras modalidades, sem que no final, consigam pelo menos passar e atirar a bola ao alvo com 50% de eficácia. É necessário que saibam estar na bancada, que entendam melhor a função dos árbitros e percebam de uma vez por todas que, numa equipa, pelo erro de um paga a equipa toda. Todo o transfer que exista destas competências para a sociedade, é actualmente uma miragem. Impera o individualismo, a incapacidade de trabalhar em projectos, a falta de produtividade e uma constante atitude de 50%.

Nestes corta-matos, provas politicamente impactantes, de elevada visibilidade, apresentam-se sempre os mesmos alunos e professores. Ao contrário daquilo que parece (um evento de massas de participação voluntária), o corta-mato é obrigatório para as escolas que participam no desporto escolar. Parece uma contradição: por um lado a falta de exigência, a incompreensão para os conteúdos que trabalham a base de condição física para estas provas e, por outro lado, a obrigatoriedade de uma prova de elevada exigência. Ao nível escolar, fica ao critério dos professores preparar ou não os alunos para o evento do corta-mato dentro de cada escola. Verificamos depois alguns alunos que, por ansiedade, por nunca terem competido, se sentem pressionados a fazer algo para o qual não estão minimamente preparados. Sim, porque não é fácil para quem não corre 2 ou 3 vezes por semana a 70 ou 80% do máximo, realizar um corta-mato escolar.

Mas quando todos os alunos realizam trabalho de condição física de forma regular, quando têm alguma intensidade de treino, apresentam-se nestas provas para se superarem ao lado de gente que não conhecem, testando verdadeiramente as suas capacidades. Trazendo já a noção do que é dar o seu melhor, do que é ter a pulsação próxima dos limites, do que é uma frequência ventilatória muito aumentada, do que são dores musculares, do que são as dificuldades de cair e levantar-se da lama, do que é o ambiente pré-competitivo e todo o relacionamento social e exposição perante o público. Assim, retiram muito mais proveito da actividade e conseguem na maioria dos casos bater os seus melhores tempos, surpreender-se a si próprios e serem muitas vezes chamados ao podium.

Os professores vêem assim parte do seu trabalho recompensado, depois de terem conseguido alunos substitutos à última da hora com equipamentos emprestados, depois de convencerem a aluna B a ir porque a aluna A também vai, depois de todo o stress de obter autorizações de encarregados de educação de todos os alunos, mesmo daqueles que se esqueceram à última da hora, depois de acordarem alunos que não despertaram a horas, depois de cuidarem de todos eles como se fossem seus filhos, vêem assim coroado o seu esforço.

Como professores ficamos sobretudo satisfeitos quando os alunos conseguem ir a uma prova e controlar o seu estado de ansiedade pré-competitiva, libertando de forma progressiva o seu stress, percebendo que afinal até podem controlar algo na sua participação: o seu próprio desempenho. Deixando assim de se centrarem naquilo que não controlam e passando a centrar-se nas suas próprias acções. É giro de ver e é bom poder ajudar. Quase sempre chegam surpreendidos e compreendem neste momento o efeito do trabalho das aulas, dos sermões do professor sobre tabaco, sono e alimentação, dos trabalhos de casa (corriditas, burpees, agachamentos e afins). Sentem-se poderosos e depois da fase de recuperação ficam atónitos como conseguiram superar as suas expectativas subindo ao podium, quando minutos antes diziam: “- Não vou chegar ao fim! – É muito comprida a pista! – O piso está escorregadio! – Tem ali umas que devem fazer atletismo! – Nós não temos hipóteses!” É aqui que se deixa a marca da educação física para o que resta de vida escolar mas sobretudo para o resto da vida. Memórias que não se apagam, mas sobretudo aprendizagens que ficam e ensinam os alunos a vencer obstáculos muito mais difíceis do que correr um corta-mato.

Neste corta-mato ao ver alunos e alunas que trabalharam comigo, sinto-me algo realizado neste sistema de ensino de frequência, libertando parte da revolta que vai cá dentro, depois de lutas sem fim para EDUCAR os alunos contra partes de um sistema cada vez menos oleado. Venceram algumas ideias, alguns valores, alguns princípios cujo verdadeiro termómetro será o futuro.

Continuamos nesta aventura com os amigos professores! 🙂

Serviço – Pessoas – Formação: uma perspectiva de 20 anos de ginásios

“Customer service is now for things that go wrong… your standards are way too low!” “Where,” Seth asked, “is the box where you check to pay more. I’ll pay more and you’ll be nice to me? Where is that??”

Seth Godin

Nos ginásios, vendemos aulas de grupo diversas: natação e actividades no meio aquático, musculação, treino personalizado, massagens, etc. Vendemos actos humanos! Chamamos-lhe serviços, que se caracterizam por serem intangíveis, por serem produzidos e consumidos no mesmo momento, que não podem ser transportados ou armazenados. São serviços pessoais, por vezes categorizados junto dos barbeiros, cabeleireiros, esteticistas, funerais, casamentos, fotógrafos, alfaiates e modistas. Mas têm uma característica importante: um forte componente social.

Apelam portanto à necessidade dos seus profissionais terem boas competências relacionais para além das técnicas, a fim de conseguirem transformar indivíduos sedentários em pessoas activas capazes de incorporar a actividade física nas suas vidas.

Se vendemos actos humanos, a participação dos recursos humanos é muito intensiva nos processos de produção desses serviços, fazendo com que o comportamento dos funcionários influencie fortemente o resultado final e a percepção que os clientes têm do serviço.  E como o comportamento varia consideravelmente, faz com que as aulas variem e estejam muito dependentes do indivíduo que as lidera. Ou seja, tudo aquilo que o funcionário faz, a forma como se veste, como comunica é marketing, é uma forma de criar uma relação comercial, uma vontade do cliente se manter ou não como cliente.

As cadeias de ginásios associaram-se a algumas marcas na tentativa de transformar serviços em produtos. Padronizar actos humanos devido às necessidades do negócio de replicação de unidades de fitness. Assim, surgiram grandes desenvolvimentos tecnológicos nos equipamentos de fitness, nomeadamente nos painéis das máquinas cardiovasculares com programas pré-definidos de forma a minimizar a intervenção humana. Aumentaram ainda os sistemas de dissociação cognitiva presentes nesse tipo de equipamentos, como a televisão, a possibilidade de escolha áudio e mesmo o acesso à internet. Foi com a enorme necessidade de padronizar os actos humanos que se limitaram os exercícios, os gestos e movimentos, quer por parte dos alunos, quer por parte de quem deveria ministrar as aulas, mas que se limita a executar um conjunto bem definido de tarefas. Surgiram assim marcas registadas de aulas de grupo .

Nos health clubs permanecem problemas antigos, como o enorme número de funcionários em regime de part-time, a falta de formação desses funcionários, uma abordagem pouco profissional em termos de gestão, uma falta de procedimentos operacionais, uma abordagem ao negócio como se não fosse um negócio de prestação de serviços e uma grande flutuação de funcionários (IHRSA Institute, 2000).

Os nossos instrutores deixaram de ensinar e passaram a representar.

Mike Chaet

Durante algum tempo, as universidades estavam essencialmente orientadas para formar profissionais vocacionados para o ensino escolar e para a competição. Ignoraram a área chamada de recreação e lazer e não assumiram a formação de profissionais de fitness. Assim, abriram espaço para a iniciativa privada, para as empresas como a CEFAD, a Promofitness, CEF, etc.

Identifiquei ao longo destes anos o perfil de vários tipos de profissionais de musculação:

  • GM – Guarda de Máquinas
  • CR – Contador de Repetições
  • FI – Fomentador de Intimidades
  • AM – Actina e Miosina
  • R – Recepcionista (recentemente criado pela nova indústria do fitness)

Alguns destes profissionais evoluem na sequência anteriormente apresentada. Provavelmente necessitamos de um cruzamento entre todos estes tipos de profissionais para conseguirmos um supervisor de sala de musculação mais completo e equilibrado. Na nossa perspectiva, um bom professor necessita (ver 21 características de um bom personal trainer):

  1. Paixão por aquilo que faz
  2. Atitude positiva em relação ao seu trabalho
  3. Utiliza ferramentas simples com mestria
  4. Lidera através do exemplo
  5. Persistente
  6. Fanático por desenvolvimento pessoal
  7. Sabe colocar-se no lugar dos seus alunos
  8. Coloca as pessoas acima de tudo (metodologias, equipamentos… regras…)
  9. Tem sempre uma visão daquilo que quer
  10. Conhecimentos técnicos
  11. Equilíbrio ideal-real
  12. Vai criando a sua própria metodologia de treino
  13. Centra o seu trabalho no aluno
  14. Curioso
  15. Integridade
  16. Não abdica dos princípios de treino
  17. Capacidade de adaptação e flexibilidade
  18. Sabe escutar e cuida da proxémica
  19. Humilde
  20. É um educador!
  21. Dá sempre o seu melhor!

No mercado da formação de profissionais de fitness, deparamo-nos com ginásios que realizam formação interna (muito poucos), mas a grande maioria recorre a empresas externas, envia os seus profissionais a centros de formação. No entanto, o mais comum é que sejam os profissionais do fitness a realizar cursos e formação por iniciativa própria, sem apoio nem incentivo por parte dos seus patrões.

Os centros de formação apresentam cursos de carácter generalista onde se abordam várias temáticas (exemplo: curso de instrutores da Promofitness) e cursos mais específicos das grandes áreas de intervenção: meio aquático, musculação, aulas de grupo e treino personalizado.

Durante algum tempo, as Universidades com cursos dedicados à actividade física e desporto, não reconheciam o fenómeno do fitness, a actividade física realizada em ginásios privados, por isso formavam profissionais para o limitado mercado da alta-competição e para o ensino da educação física escolar. Nos últimos dez anos, têm vindo a modificar a sua estratégia, quer através de pós-graduações, quer pela inclusão de conteúdos algo relacionados com as actividades de ginásio, bem como pela crescente colaboração em estágios e eventos realizados nesta indústria do fitness. As grandes cadeias realizam também formação externa que qualquer indivíduo pode frequentar. Depois temos as várias empresas privadas já mencionadas e organizações nacionais e internacionais que fornecem essencialmente ao mercado certificações, das quais se destacam as mundialmente reconhecidas do American College of Sports Medicine, da National Strength and Conditioning Association e do American Council on Exercise. Estas organizações nas suas tendências para 2010 salientam a importância de obter credenciais profissionais adequadas e para a necessidade que o mercado do fitness tem de profissionais experientes e com formação.

Alguns ginásios reclamam que os professores levam os seus alunos embora porque criaram um grupo do qual são líderes, criaram uma tribo da qual são chefes. Por isso, quando por alguma razão têm de abandonar o ginásio onde trabalham, sobem a probabilidade de levar o seu grupo de alunos consigo.

Mas, estes ginásios treinam os seus professores? Preocupam-se com o desenvolvimento dos seus funcionários? O desenvolvimento de um funcionário num ginásio, deverá passar, entre outras coisas, por aspectos como:

  • Serviço a clientes
  • Sombras aos funcionários mais experientes
  • Formação contínua
  • Desenvolvimento pessoal
  • Treino de procedimentos
  • Integração na equipa de trabalho
  • Imagem
  • Instalações e equipamentos
  • Procedimentos de segurança

A formação tem de integrar os aspectos multifactoriais nos cursos técnicos específicos de musculação, hidro, etc. O marketing, a comunicação, a modificação de comportamentos, a motivação e outros aspectos importantes na intervenção em ginásios, têm de estar presentes no ensino de todas as técnicas específicas das várias actividades, quer ao nível do saber-fazer, quer ao nível do saber-estar, quer ao nível do saber-ensinar.

Salienta-se também a importância de centrar os conteúdos dos cursos de formação em grandes princípios e não em receitas e programas pré-definidos, a fim de não retirar a componente criativa dos seres humanos (treinadores/professores) que estão em contacto directo com os outros seres humanos (alunos/clientes). A grande preocupação por padronizar actos humanos, por parte das grandes cadeias de ginásios tem tido um impacto forte nos conteúdos dos cursos de formação. Mas não nos podemos esquecer que os pequenos e médios ginásios representam mais de 90% do mercado e têm outras necessidades ao nível de formação profissional.

A relação sócio-funcionários é um dos factores mais importantes para a retenção de sócios nos ginásios. Mas… quantas interacções temos com os nossos clientes? Que temos feito para aumentar a qualidade dessas interacções? Numa sala de musculação, com 30 clientes e um professor que procure dar um minuto de atenção a cada cliente, acabará no final por conseguir 2 interacções com esse grupo de pessoas durante uma hora. Mas para tal, terá de se esforçar por conseguir esse objectivo, e deverá estar liberto nessa hora de funções como a elaboração de programas de treino ou triagem de alunos. Terá ainda de gerir bem o seu tempo para conseguir efectuar um bom “carrocel” de interacções (distribuir um pouco de atenção a toda a gente). Para tal, necessita de boas competências relacionais, de comunicação e empatia.

Treinei em 8 países diferentes em mais de 50 ginásios diferentes, fora as centenas que visitei e alguns locais de estágio. Frequento ginásios desde 1988 e sou formador há pelo menos 15 anos de cursos generalistas e específicos de curta e longa duração nas áreas de marketing, gestão de ginásios, musculação e treino personalizado. Desenvolvi várias equipas de trabalho e profissionais individuais. E a minha percepção global da actuação dos profissionais portugueses é boa. No entanto, falta uma perspectiva mais centrada nos clientes, algumas técnicas de gestão que permitam distribuir mais atenção pelos clientes, mais ambição, maior produtividade no tempo de trabalho, mas… Talvez a grande diferença esteja na comunicação, no trabalho em equipa e na existência de uma metodologia de trabalho própria. Para isso necessitamos líderes, bons líderes para esses profissionais. Infelizmente, a indústria portuguesa tem contratado mais gestores do que líderes. A formação poderá ajudar, uma intervenção para alterar processos com uma abordagem tipo “coaching” poderá fazer grandes mudanças de melhoria, mas a atitude dos profissionais e sobretudo dos seus líderes terá de mudar sem nunca deixar de centrar toda a sua acção no cliente. Será com uma perspectiva de marketing (centrada nas necessidades do cliente) e não de vendas (centrada nas nossas necessidades), será com uma abordagem mais forte ao nível das relações públicas (acções indirectas para conseguir que os outros digam que somos bons) e menos intensa na publicidade (dizer que somos bons) que poderemos captar e manter mais pessoas para os nossos ginásios.