Análise Fatorial Confirmatória do Exercise Motivation Inventory-2 (EMI-2) e Validação de uma Versão Reduzida

Paulo Sena, Susana Alves, Pedro Baptista, Teresa Bento, Luís Cid e João Moutão
Paulo Sena, Susana Alves, Pedro Baptista, Teresa Bento, Luís Cid e João Moutão

Atualmente surge, cada vez mais, uma necessidade de compreender quais as razões para o baixo número de praticantes de exercício físico na União Europeia, sendo que a percentagem de praticantes de exercício físico com regularidade encontra-se um pouco abaixo dos 30%. No seguimento deste raciocínio, centra-se assim uma enorme curiosidade em desvendar como se poderá compreender os motivos para esta pouca prática na população do velho continente ou, até, qual o motivo que direciona, de um forma mais preponderante, o praticante de exercício físico a fazer tal atividade.

       O Exercise Motivation Inventory 2 é um instrumento validado em vários países e para várias línguas e tem sido um dos principais questionários a ser utlizado para desvendar quais os principais motivos para a prática de exercício, sendo assim direcionado para o contexto dos ginásios. Este instrumento foi criado em 1997 por Ingledew e Markland e é uma versão melhorada de um Exercise Motivation Inventory que se apresentava como um instrumento debilitado, tendo sido acrescidos dois motivos e validado no seu construto. Este novo instrumento é composto por 51 itens, 14 fatores e 5 dimensões (motivos psicológicos, motivos interpessoais, motivos relacionados com o corpo, motivos de condição física, motivos de saúde), foi validade em termos da sua invariância entre vários grupos como o género e o fato de ser praticante ou não praticante. Tendo em conta estes aspetos pode-se referenciar este questionário como bastante abrangente (avalia vários motivos e vários grupos diferentes) e internacional (aplicável em vários países e línguas).

Pode-se assim afirmar que esta problemática demonstrada na União Europeia pode ser combatida e estudada recorrendo a este questionário, desvendando-se assim duas principais problemáticas na sua aplicação que se transformam nas hipóteses dos dois estudos que compõem esta tese: validação através de uma análise fatorial confirmatória para a população portuguesa e necessidade de redução da extensão do questionário de forma a torna-lo mais fácil e rápido de aplicar.

O primeiro estudo tem como objetivo validar o Exercise Motivation Inventory 2 numa versão orientada para a população portuguesa. Este questionário é constituído por 5 dimensões, 14 fatores e 51 itens. Esta validação é feita por intermédio de uma Análise Fatorial Confirmatória à estrutura apresentada no questionário do EMI-2, tendo em conta os valores de ajustamento do modelo e a aproximação destes aos parâmetros sugeridos pelos autores de referência (CFI e NNFI ≥ .90; RMSEA ≤ 0.06; SRMR ≤ .08). Para este estudo foi tida em conta uma amostra de 2266 indivíduos praticantes de fitness, de ambos os géneros, com uma média de idades de 35.95 anos (± 13,08). Para validação deste questionário foi necessário dividi-lo por dimensões e fatores para aplicar uma AFC de forma aos parâmetros se ajustarem, também foi necessário ajustar alguns pesos fatoriais e igualar a variância em alguns erros associados aos itens para ajustar fatores mais problemáticos, bem como a criação de correlações. Por fim pode-se afirmar que os valores retirados das AFC feitas aos fatores aceitam-se de forma separada, concretizando-se assim o objetivo deste estudo apesar de ser necessário salientar alguns itens e fatores problemáticos que poderiam ser eliminados.

No segundo estudo o objetivo foi criar uma nova versão do Exercise Motivation Inventory-2p. Este objetivo surge após se verificar a extensão deste questionário (é constituído por 5 dimensões, 14 fatores e 51 itens) para a aplicação no contexto do ginásio, perdendo assim alguma da sua utilidade e qualidade. Para este estudo foi tida em conta uma amostra de 2266 indivíduos praticantes de fitness, de ambos os géneros, com uma média de idades de 35,95 anos (±13,08). Esta redução é baseada na seleção dos itens mais fortes dentro de cada fator, previamente analisado através de uma Análise Fatorial Exploratória, de onde surgiria uma versão de apenas 3 fatores e 14 itens. Seguido de uma Análise Fatorial Confirmatória à estrutura apresentada nesta nova versão do questionário do EMI-2p, tendo em conta os valores de ajustamento do modelo (CFI, NNFI, SRMR, RMSEA, RMSEA IC 90%) e a aproximação destes aos parâmetros sugeridos pelos autores.    Para que seja possível esta redução foram experimentados 4 modelos diferentes com os itens previamente selecionados, após uma AFC verificou-se a necessidade de analisar os fatores em separado, chegando assim à conclusão de ser possível efetuar a redução do EMI-2p mantendo-se a sua consistência e o que pretende avaliar.

Como conclusão destes estudos tenho a referenciar que este tipo de análises nem sempre é fácil, sendo necessário enumeras tentativas na utilização do software AMOS 20.0 de forma a que os valores de corte aceitáveis sejam atingidos. Apesar de apresentar algumas reservas relativas a alguns valores apresentados no primeiro estudo posso afirmar que os objetivos foram atingidos e que agora a população portuguesa detém mais um instrumento que possa avaliar os cinco principais motivos e os respetivos catorze motivos nele inseridos e outro novo instrumento que consegue avaliar catorze sub-motivos de uma forma mais rápida.

Recomenda-se, contudo, mais investigação nesta área que tem imenso por onde desenvolver e um mercado excelente a explorar. Também se recomenda que um Psicólogo do Exercício consiga o seu espaço no ginásio de forma a conseguir intervir com os clientes do ginásio e colaborar com os instrutores e restante staff que o compõem. Para além destas recomendações, é importante referir que este questionário (versão reduzida do EMI-2p) deverá ser aplicado e que seja feita uma nova AFC de forma a compreender se há alterações nos valores de corte tendo em conta a análise feita nestes estudos.

Em termos práticos, este questionário poderá ser extremamente útil nos ginásios de forma a compreender os motivos que levam o cliente ao ginásio, tal como será fundamental transformar essa compreensão numa nova forma de intervenção junto do mesmo. A aplicação deste questionário poderá ser feita no momento da avaliação física inicial do cliente, onde o Psicólogo do Exercício, que estiver afiliado ao ginásio, poderá ter uma breve intervenção e aplicar o questionário para desvendar os motivos que levam o cliente a estar onde está no preciso momento.

Pedro Baptista

pedro_paluxa@hotmail.com

Mestre em Psicologia do Desporto e Exercício pela ESDRM.

Luís Cid

luiscid@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

João Moutão

jmoutao@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

Motivos para a Prática de Exercício: tradução e validação do Goal Content for Exercise Questionnaire

Hugo Louro, Paulo Sena, Susana Alves, Luís Cid, Eduardo Ramos e João Moutão
Hugo Louro, Paulo Sena, Susana Alves, Luís Cid, Eduardo Ramos e João Moutão

O estudo da motivação para o exercício físico tem obtido um incremento de investigação nos últimos anos. Entre as teorias mais utilizadas, encontra-se a Teoria da Autodeterminação uma das mais importantes devido à sua aproximação com a prática, flexibilidade e fiabilidade. Dentro da Teoria da autodeterminação encontra-se a subteoria do conteúdo dos objetivos que carateriza o conteúdos dos objetivos para a prática de atividade física como intrínsecos ou extrínsecos.

Funciona como potenciador do crescimento pessoal dos praticantes, aumenta a satisfação pessoal e o bem-estar e culmina com o crescimento da indústria.

Esta investigação centra-se na tradução, adaptação e validação do Goal Content for Exercice Questionnaire para a população portuguesa e analisar a orientação do conteúdo dos objetivos dos praticantes portugueses de atividade física.

O GCEQ vem colmatar a ausência de instrumentos científicos nesta área e incrementar a oferta de instrumentos para o combate às barreiras e desistências, mas sobretudo à satisfação dos praticantes de atividade física em ginásios.

Na prática de exercício o conteúdo dos objetivos é fundamental para o entendimento dos reais valores do cliente face á execução e inscrição nos ginásios e para a análise pessoal e relacional.

Esse questionário para além da classificação dos objetivos categoriza anda os objetivos por fatores Intrínsecos (Afiliação Social, Manutenção da saúde e Desenvolvimento de capacidades) e fatores extrínsecos (Imagem corporal e reconhecimento de capacidades).

Permite ainda a redefinição da prática de exercício para os reais objetivos, ou seja, com estes dados obtemos uma aproximação da perceção de realidade pretendida com o “eu real”. Permite então claramente benefícios na satisfação, bem-estar, resultados ao nível do relacionamento e obtenção de resultados de forma eficiente.

Participaram no estudo 389 indivíduos praticantes de fitness (n = 171 masculino 44%, n= 218 feminino 56%), com idades compreendidas entre os 11 anos e os 75 anos de idade (M = 31.4; DP = 11.15) que frequentavam ginásios no Norte e Centro de Portugal (Aveiro 46 %; Porto 21 %; Castelo Branco 13 %; Viseu 9 % e Leiria 11 %).

Envolvidos em atividades de Cardiofitness (n = 186, 48%,) Musculação (n = 117, 30%) e Aulas de grupo (n = 85 ou seja 22 %).

Foi utilizado a versão preliminar portuguesa do Goal Content for Exercice Questionnaire (GCEQ) (Sebire et al., 2008) que se revela um questionário de 20 itens de medida que atesta a importância que as pessoas colocam nos seus esforços e na sua prática de atividade física.

Os principais resultados permitem antecipar uma relação entre o género e os motivos de afiliação social e desenvolvimento de capacidades (vocacionadas com a motivação intrínseca).

A relação entre a idade e o fator saúde indica que um dos principais fatores de adesão e manutenção na prática desportiva é a preocupação com a saúde, bem-estar e qualidade de vida.

Relativamente ao grupo de modalidades, essa escolha efetuada pelo praticante é baseada na perceção de competência sobre a realização de atividades de fitness (própria ou introjetada por terceiros).

Verificamos assim a importância da avaliação do conteúdo dos objetivos para uma máxima rentabilização de recursos, avaliação correta e coerente do real objetivo face à prática de atividade física e retenção de dados que podem ter valor da planificação de aulas e atividades.

Mas na realidade qual a implicação prática destes resultados e investigações?

Com os resultados demonstrados desta investigação e suporte na bibliografia podemos considerar extremamente importante a regulação comportamental nos ginásios e este aspeto é essencial na análise da motivação dos praticantes para a adesão e manutenção dos clientes.

Assim de forma mais prática iremos abordar e refletir sobre os processos em que a análise e avaliação do conteúdo dos objetivos possui influência na adesão e manutenção dos praticantes de forma faseada, demonstrando também a importância da Psicologia associada ao exercício físico.

  • Analisar e avaliar o praticante em relação ao contexto (ginásio):
    • Objetivos da prática;
    • Modalidades preferidas;
    • Informação básica (pessoal, experiências de prática)
  • Elaboração de planos ajustados aos dados recolhidos (objetivos, modalidades) em consonância com os instrutores, cliente e restante staff se necessário:
    • Explicação dos objetivos do plano de treino, do caminho a prosseguir.
    • Permitir ao cliente participar no desenho do plano de treino (autonomia, satisfação e responsabilidade)
    • Elaboração e implementação do plano de treino;
    • Objetivo a curto, médio e longo prazo a atingir;
    • Intervenção regular, assertiva e acompanhada ao nível da comunicação dos instrutores;
  • Adaptação do contexto ao objetivo do cliente:
    • Grupos de prática por conteúdo dos objetivos;
    • Definição de objetivos individuais por grupos de modalidade, por aula e por instrutor;
    • Avaliação constante dos objetivos e do plano traçado inicialmente;
    • Gravação de aulas para confrontação com os objetivos e plano traçado;
    • Promover a identificação com a prática e com o ginásio (reforço e valorização do esforço, das necessidades e dos objetivos)
    • Proporcionar o cumprimento do plano de objetivos.

Assim conseguimos afirmar que o conteúdo dos objetivos do cliente é proporcional com a realidade encontrada na prática, mantendo assim níveis positivos de identificação com a prática, manutenção de clientes, crescimento pessoal e comercial do ginásio, integração do comportamento desportivo do cliente e comportamento social e humano do ginásio.

Em suma, promovendo uma identificação, desenvolvemos relações.

Eduardo Ramos

eduh_ramos@hotmail.com

Mestre em Psicologia do Desporto e Exercício pela ESDRM.

João Moutão

jmoutao@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

Luís Cid

luiscid@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

Motivação e adesão aos ginásios

Por Nuno Couto e Luís Cid

Carlos Silva, Paulo Sena, Nuno Couto e Luís Cid na defesa pública da Dissertação de Mestrado de Nuno Couto
Carlos Silva, Paulo Sena, Nuno Couto e Luís Cid na defesa pública da Dissertação de Mestrado de Nuno Couto

Basta pesquisar um pouco sobre a investigação realizada acerca da Psicologia aplicada ao Exercício Físico, para verificarmos que o tema da motivação é um dos mais aplicados a este domínio. Esta inclusão surgiu pela tentativa de compreensão do comportamento humano neste contexto específico, onde para muitos, o que é hoje, amanhã já não é! Com isto queremos dizer, e como muitos que agora estão a ler este documento sabem, que quando os indivíduos na sua grande maioria iniciam a prática de exercício num determinado ginásio, fazem-no com determinados objectivos de frequência e participação (adesão), o que passado algumas semanas, ou mesmo dias, esses mesmos objectivos são reformulados, e na sua grande maioria, num sentido desajustado à obtenção dos benefícios, quer físicos, quer psicológicos, que uma prática regular proporciona aos praticantes.

Sabendo nós da elevada influência que os estímulos fornecidos pelo contexto exercem sobre o comportamento dos praticantes, fomos aplicar a Teoria da Autodeterminação ao contexto da prática de exercício físico em ginásios, visto ser uma das mais fortes teorias motivacionais que explica o desenvolvimento e funcionamento da personalidade em contextos sociais através de uma conceptualização multidimensional da motivação que assenta num continuum motivacional que oscila entre as formas menos e mais autodeterminadas (extrínseca vs intrínseca), relacionando assim as suas componentes: necessidades psicológicas básicas (autonomia; competência; relação) e a regulação motivacional com a adesão dos praticantes de exercício físico em ginásio. Esta teoria afirma fundamentalmente que o comportamento intrinsecamente motivado é autónomo e autodeterminado, e que não existem dois pólos motivacionais: motivação extrínseca e intrínseca, mas sim um continuum motivacional, através do qual o sujeito regula o seu comportamento. À medida que possui uma maior índice de autonomia, avança-se no sentido da autodeterminação , ou seja, o comportamento intrinsecamente motivado. No entanto, isto não significa que não possa existir a regressão para um sentido mais externo da motivação, basta que para isso exista menor percepção de autonomia na realização do desse comportamento.

Nesta investigação, participaram 102 indivíduos praticantes de exercício físico num ginásio do distrito de Leiria – Portugal, com uma média de idades de 28.75 anos, sendo 52 elementos do sexo feminino e 50 do sexo masculino. Para o estudo, utilizamos a versão portuguesa do Behavior Regulation Exercise Questionaire (BREQ-2) e do Basic Psychological Needs in Exercise Scale (BNESp), instrumentos que permitiram avaliar a regulação motivacional e a satisfação das necessidades psicológicas básicas, respectivamente. A adesão foi medida através do registo informatizado de presenças dos praticantes ao ginásio durante um período de seis meses.

Os principais resultados indicam a não existência de diferenças na satisfação das necessidades psicológicas básicas de autonomia, competência, relação e na regulação motivacional, independentemente do estado de adesão. Aferimos ainda, que a satisfação das necessidades psicológicas básicas e a regulação motivacional, não exercem influência sobre o tempo médio de cada treino, a frequência semanal e o tempo que praticam exercício físico no ginásio.

Verificamos assim, que neste ginásio, não é por ter mais tempo de prática no ginásio, ou ter um tempo médio de treino superior, que se verificava um maior nível de satisfação das necessidades psicológicas básicas e um maior nível de regulação motivacional. Mas em termos práticos, o que isto significa?

A bibliografia diz-nos que o comportamento autodeterminado associa-se positivamente à manutenção da prática de exercício físico, por outro lado, a menor autodeterminação associa-se a regulação externa do comportamento, o que pode ter consequências negativas sobre o estado de manutenção do comportamento. No entanto, no presente estudo, verificámos uma situação contrária neste ginásio. Contudo, durante a investigação percebemos existir uma elevada satisfação das três necessidades psicológicas básicas e razoáveis valores na autonomia do comportamento, resta-nos questionar sobre a possibilidade de, ao longo do tempo, estes comportamentos se manterem.

Assim e de uma forma mais prática desta exposição, resta-nos reflectir sobre a seguinte questão: como se faz para fazer evoluir e manter um comportamento intrinsecamente motivado em praticantes de ginásio?

  • Promover a satisfação das necessidades psicológicas.

Para promover a necessidade de autonomia, deve-se permitir que os praticantes participem na tomada de decisão sobre as actividades do seu programa de exercício, ou seja, é necessário conhecer as necessidades próprias de cada praticante e proporcionar-lhes um maior controlo sobre as suas acções.

Por exemplo: No início, na chamada fase de adaptação do indivíduo ao ginásio, deve-se proporcionar o maior número de actividades para que este conheça, e dê a conhecer os exercícios favoritos, para que na altura de se prescrever o exercício, se faça a inclusão destes no programa. Seja como for, isto não quer dizer que não seja importante e se deva manter os processos funcionais do exercício, necessários para que o indivíduo atinja os objectivos a que se propôs.

Em termos práticos, podemos dar como exemplo o seguinte: no ginásio existem duas bicicletas, uma reclinada e outra vertical, mesmo tendo solicitações fisiológicas diferentes, a inclusão no programa de exercício da opção que mais agrada ao praticante, contribui de forma bastante positiva para a forma como este realiza o comportamento.

Para a promoção da necessidade de competência, deve-se orientar as pessoas para uma busca de desafios de acordo com as suas capacidades, apelando sempre à melhoria das aprendizagens e superação pessoal.

Por exemplo: como instrutor, sei que determinada pessoa não possui capacidades coordenativas desenvolvidas o suficiente para que possa realizar uma actividade mais técnica (por exemplo: uma aula de step ao power jump, então porquê recomendar que faça este tipo de aulas, para proporcionar sentimentos de incompetência? Neste ponto parece que entro em contradição com o exemplo dado para o caso da autonomia, pois disse que se devia de experimentar tudo. Mas não é disso que se trata, pois se quem acompanhar o praticante, o prepara para o que possa acontecer. Coloquemos uma situação hipotética relacionada com o facto de um praticante (a Maria ou o Manuel) vai ter dificuldades na minha aula de step porque tem dificuldades coordenativas, então tenho que a preparar para o que possa acontecer:

“A Maria sabe como é uma aula de step? Numa fase inicial pode parecer confusa esta mudança de movimentos entre o solo e o step, mas se sentir alguma dificuldade é perfeitamente normal. É normal que veja os outros praticantes virados para um lado e você para outro, no entanto, se continuar a frequentar esta aula, irá verificar que se vai sentir mais à vontade e que conseguirá acompanhar a coreografia.”

Este tipo de diálogo prepara o indivíduo para o que possa acontecer, tomando logo à partida consciência do factor negativo, havendo logo à partida uma preparação pré-pratica que engloba uma situação menos positiva da prática. Não sendo intenção deste artigo, é fundamental como a maioria dos instrutores de fitness sabem, o acompanhamento durante a aula, sendo este bastante importante para a promoção e manutenção do sentimento de competência:

“Boa Maria! O movimento mais difícil já está, agora melhora a posição dos braços para ficar excelente….isso mesmo, muito bem!”

Este reforço promove a promoção do sentimento de competência e além disso, deixa o praticante sem o receio de ser incompetente na execução técnica.

Relativamente à necessidade de relação, é importante que os indivíduos em contexto de exercício físico possam estabelecer relacionamento (s) com os que se identificam mais, com um sentimento de vínculo com os outros, deve-se manter a relação de bem-estar, segurança e a unidade com os membros de uma comunidade.

Por exemplo: apresentar o indivíduo aos outros praticantes é fundamental para que isto possa acontecer. Por exemplo: os instrutores que encaminham uma pessoa pela primeira vez a uma passadeira, e ao lado está alguém que já conhecemos, porque não fazer a apresentação? “Dona Ana, hoje vamos começar aqui na passadeira….” e quando chegamos junto à passadeira, podemos fazer referência à pessoa que está  ao lado “….hoje fica aqui junto do Srº João, sabe ele é perto da sua terra…” esta pequena ligação possibilita quebrar logo ali uma barreira, mas existe um senão: há que perceber se neste caso o Srº João se interessa ou está disposto para este tipo de diálogo.

Durante as aulas de grupo, porque não promover a interacção entre os alunos? Existem modalidades pré-coreografadas que já contemplam este tipo de comportamentos, mas pode-se criar determinados movimentos em aulas que podem ser realizados com interacção com diversos elementos, promovendo um sentimento de relação e integração com outros praticantes no ginásio.

No entanto, e na continuação da promoção de uma motivação autónoma (mais autodeterminada) associa-se 2 tipos fundamentais de regulação do comportamento:

1)      Motivação Identificada: através da qual o sujeito aceita o comportamento como pessoalmente importante, identificando-se com o seu objectivo e valor;

2)      Motivação Intrínseca: através da qual o sujeito realiza o comportamento apenas pelo prazer, divertimento e satisfação que lhe está inerente.

Estratégia 1: Explicar as Razões/Propósitos das Actividades/Exercícios

Objectivo: Atribuir um sentido à actividade/exercício e potenciar uma percepção clara e correcta daquilo que se está a fazer e o porquê de se fazer, permitindo que os praticantes possam atribuir importância e valorizarem a actividade/exercício.

Por exemplo: (através da forma e conteúdo da comunicação/acção para com os praticantes): O que se deve fazer/dizer: “Este exercício vai permitir desenvolver os músculos que estão na base de sustentação da postura”; “Ao realizar a actividade a um ritmo menos intenso irá proporcionar uma diminuição do impacto sobre as articulações”; “Se aumentar o volume da carga para níveis inabituais aumentará o risco de lesão e o surgimento de contracturas (dores) musculares”. O que NÃO se deve fazer/dizer (apenas): “Olá a todos! Vamos começar a aula?”; “Ao fazer abdominais não ponha as mãos atrás da cabeça”; “Não incline o tronco à frente no agachamento!”; “Agora vamos subir e pedalar em pé durante 10 minutos!”.

Estratégia2: Identificar Aquilo que os Praticantes Gostam de Fazer

Objectivo: Potenciar a prática de actividades/exercícios que sejam agradáveis ao praticante, aumentando o prazer pela sua realização.

Por exemplo: (através da forma e conteúdo da comunicação/acção para com os praticantes): O que se deve fazer/dizer (ou perguntar): “Diga-me lá uma coisa: de tudo aquilo que já experimentou o que é que gosta mais de fazer?”; “De todos os exercícios do seu programa, quais são aqueles que lhe custam mais fazer (aqueles que gosta menos)?”; “Hoje não lhe apetece fazer este exercício/aula ? Então arranjamos uma alternativa!”; “Quer mudar o seu programa de exercício?”. O que NÃO se deve fazer/dizer: “Tem de ser! Não pode fazer só aquilo que gosta!”; “Se não doer, não faz efeito!”; “Não existe outra forma, só conseguirá atingir os seus objectivos se fizer o que está no programa”.

Em suma, devemos:

  • Promover a Identificação com o Exercício (a valorização do exercício como pessoalmente importante para o praticante, reforça o compromisso com a actividade praticada);
  • Proporcionar o Divertimento (o ser humano repete o que é agradável e rejeita o que não é – o exercício tem de ser divertido para quem o faz).

Este tipo de comportamentos por parte dos instrutores e professores em contexto de ginásio, permite a satisfação das necessidades psicológicas básicas, logo a promoção de um comportamento mais autodeterminado, sendo fundamental para a manutenção dos praticantes de exercício físico, evitando por vezes a regressão de um comportamento com satisfatória autonomia para indicadores menos autodeterminados.

Assim, afirmamos que o ambiente que é desenvolvido no ginásio, é determinante para retenção dos praticantes, sendo este fundamental para o crescimento e integração do comportamento cada vez mais autónomo e autodeterminado, para tal, à que saber desenvolver situações capazes de promover no maior número de praticantes a desejada manutenção.

Nuno Couto

nunorpcouto@gmail.com

Mestre Psicologia Deporto Exercício pela ESDRM. Instrutor Power Jump / Cardiofitness. Treinador Futsal. Professor Actividade Física Escolar – Extra Curricular

Luís Cid

luis.filipe.cid@sapo.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém