Psicologia do Desporto, PNL, Coaching e Hipnose

O prazer surge na fronteira entre o aborrecimento e a ansiedade, quando os desafios estão bem equilibrados com a capacidade de agir de alguém. – Mihaly Csikszentmihalyi

A Psicologia do Desporto: uma área de crescente importância. 

Desde muito cedo o desporto foi utilizado como forma de educar as pessoas. Para Fitz (1897) a prática desportiva (jogar) era um meio de se preparar para a vida, por promover a capacidade de decisão, habilidade de perceber as condições corretamente e a habilidade de reagir rapidamente a um ambiente mutável.

Pessoas e factos marcantes 

Em 1898, Norman Triplett realiza um estudo com ciclistas onde conclui que os corredores que competiam contra outros, obtinham melhores resultados.

Edward Scripture (1864-1945), um psicólogo da Yale University, estuda o tempo de reação dos corredores.

Em 1920 Carl Diem cria o primeiro laboratório de psicologia do desporto na Alemanha.

Em 1925 Coleman Griffith da University of Illinois cria também um laboratório dedicado à psicologia do desporto e mais tarde escreve dois livros marcantes: Psychology of Athletics (1928) e Psychology of Coaching (1926).

Em 1938, Coleman Griffith começa a trabalhar como consultor nos Chicago Cubs, tornando-se um dos primeiros psicólogos desportivos a trabalhar no desporto profissional.

Nos anos 40, em Portugal, já o Instituto Nacional de Educação Física incluía cadeiras de psicologia aplicada ao desporto nos seus cursos. Aníbal Costa, Alves Vieira, Noronha Feio e António Paula Brito foram algumas das primeiras referencias da área em Portugal.

Em 1947, Tim Gallwey um jogador da equipa de Ténis da Harvard University, publica o livro The Inner Game of Tennis, revolucionário e surpreendente que depois extrapolou os seus conteúdos até à área empresarial. No documento, o autor partilha como começou a explorar formas de focar a mente do jogador na observação direta e sem julgamento no corpo, na bola e raquete, de uma forma que dava relevo à aprendizagem, à performance e ao prazer do processo. Esta abordagem de tomada de consciência permitia que os jogadores amadores se desenvolvessem fisica e instintivamente sem muitas instruções técnicas específicas. Cada jogo compõe-se de duas partes: um jogo exterior e um jogo interior. O primeiro é jogado contra um adversário para superar obstáculos externos e atingir um objetivo. O jogo interior desenrola-se na mente do jogador contra obstáculos como falta de concentração, nervosismo, ausência de confiança, autocondenação, tudo hábitos que impedem um bom desempenho.

Em 1965 foi criada na europa a International Society of Sport Psychology (ISSP).

Em 1966, Bruce Ogilvie e Thomas Tutko, escreveram Problem Athletes and How to Handle Them. Ogilvie estudou mais de 250 desportistas de alto nível nos anos 70.

Em 1967 funda-se a North American Society for the Psychology of Sport and Physical Activity (NASPSPA).

Em 1979 o Journal of Sport Psychology começa a publicar as diversas investigações realizadas nesta área de estudo.

Nos anos 80, os artigos de Rainer Martens ajudaram a promover a psicologia do desporto. O professor da University of Illinois havia criado a famosa editora Human Kinetics em 1974 por falta de uma editora que publicasse as atas da conferencia da NASPSPA em 1973.

Em 1987 fundava-se a divisão 47 da American Psychologycal Association – Sport & Exercise Psychology.

Como mente e corpo não existem por separado e interagem entre si, o estudo dos comportamentos humanos em ambiente desportivo tem vindo a ser um fenómeno cada vez mais estudado. A incorporação da psicologia do desporto na década dos 80, foi talvez um dos elementos mais destacáveis do recente panorama investigador (Singer, Hausenblas y Janelle, 2001).

Definição

A psicologia do desporto aplicada (American Psychological Association Division 47 [APA], 2014) é o estudo e aplicação dos princípios psicológicos à performance humana para ajudar os atletas a obterem uma performance consistente na faixa superior das suas capacidades e para desfrutar de forma plena do processo de performance desportiva. Os psicólogos aplicados são treinados e especializados para participarem numa ampla gama de atividades, incluindo: a identificação, desenvolvimento e execução do conhecimento mental e emocional, dos skills e habilidades requeridas para a excelência nos domínios atléticos; a compreensão, diagnostico e prevenção dos inibidores psicológicos, cognitivos, emocionais, comportamentais e psicofisiológicos para uma performance excelente; e a melhoria dos contextos atléticos para facilitar um desenvolvimento mais eficiente, uma execução consistente e criar experiencias positivas nos atletas.

Para Dosil (2004, p.13) a psicologia da atividade física e do desporto é uma ciência que estuda o comportamento humano no contexto da atividade física e desportiva, e como disciplina das ciências da atividade física e do desporto, guarda uma relação estreita com todas as que se enquadram nesse âmbito, aportando os conhecimentos psicológicos e desta forma, completando e enriquecendo as contribuições próprias de outras ciências como a medicina, a sociologia ou o direito. É portanto uma psicologia aplicada. Assim, Weinberg e Gould (2011) resumem a psicologia do desporto e do exercício físico como um estudo científico de pessoas e seus comportamentos em atividades físicas e desportivas.

A intervenção da psicologia no desporto

Como não existem muitas licenciaturas em psicologia do desporto em todo o mundo, pode ser difícil determinar qual a melhor combinação de formação, treino e experiência que qualificam o psicólogo desportivo. No entanto, a Divisão 47 da APA sugere que os psicólogos do desporto sejam licenciados em psicologia com experiência na aplicação dos princípios psicológicos nos cenários desportivos.

O psicólogo do desporto normalmente faz parte de uma equipa de trabalho e pode especializar-se numa modalidade desportiva, sendo uma atividade desafiante e estimulante. Mas o trabalho de equipa cria enormes desafios pelos condicionalismos impostos pelos líderes das equipas, sobretudo nos desportos coletivos. É por isso uma tarefa de trabalho para indivíduos que gostem de trabalhar em equipa. Requer boa formação, muito treino e experiência, bem como a criação de uma forte rede social no desporto onde intervém, porque as oportunidades para licenciados e incluso mestres, são muito limitadas.

Para a intervenção do psicólogo desportivo ser eficaz com os desportistas, existem alguns pressupostos:

  • que os atletas gostem dele como pessoa
  • que não seja visto como dominador
  • seja flexível na sua ação
  • tenha treino como terapeuta
  • tenha experiência
  • que se enquadre na modalidade, na situação competitiva
  • mostre sensibilidade para as necessidades individuais dos atletas
  • não imponha metodologias iguais para todos
  • contacte os atletas com alguma frequência e encontre tempo para situações de 1 para 1
  • faça poucos discursos teóricos
  • evite aplicar questionários e fichas antes das competições e numa fase inicial de conhecimento mútuo
  • evite ser demasiado observador/controlador dos atletas
  • evite timings de intervenção inadequados (por exemplo próximo de eventos importantes) sem conhecer os atletas previamente
  • disponibilize tempo suficiente para dar feedbacks.

A psicologia do desporto continuará a ser uma área de intervenção polémica pela sua inegável importância, pela sua fraca imagem perante o público em geral e perante os desportistas em particular que ainda veem o psicólogo do desporto como alguém a quem recorrer quando têm problemas em vez de o verem como um técnico que ajuda a melhorar o rendimento humano. Se verificarmos a evolução desta ciência, podemos confirmar que houve nestes cem anos muito foco no problema e esta abordagem criou a imagem da psicologia do desporto. Acresce o facto de muitos psicólogos não se terem integrado adequadamente no universo desportivo e terem uma abordagem muito clínica das situações. Mas alguns profissionais estão a mudar tudo isto no terreno.

A psicologia e outras tecnologias de intervenção no desporto

Programação Neurolinguística – PNL

Supostamente a Psicologia e a PNL têm abordagens comuns e procuram modelar os melhores treinadores e professores, registando os princípios psicológicos que os desportistas de elite utilizam, para posteriormente passarem estas estruturas mentais aos novos professores e treinadores. No entanto, a psicologia é considerada uma ciência, enquanto a PNL, embora popular continua a causar controvérsia. A inexistencia de investigações imparciais e independentes fazem com que a PNL não seja admitida pela comunidade científica mais inflexível. No entanto,  continua a ser uma ferramenta de intervenção muito útil, bastante utilizada mesmo quando se diz o contrário, porque está focada na modelagem de comportamentos e na linguagem como agente de mudança. Aliás, vários estudos académicos têm por base algumas das chamadas pressuposições da PNL e parte dos procedimentos da psicologia não têm provado ser assim tão eficazes. Talvez o grande erro da NLP seja a afirmação da rapidez e poder dos seus processos terapêuticos. Naturalmente a comunidade científica não pode reconhecer processos pouco estudados, embora parte destes se confundam com os da psicologia científica. E como todo o conteúdo mental é demasiado volátil e interage com o fisiológico, tornará sempre difícil o seu estudo mesmo em laboratório.

Hipnose

A American Psychological Association – APA (2016) define como uma técnica terapêutica, um estado de consciência que envolve atenção focada e consciência periférica reduzida, caracterizado por uma maior capacidade de resposta à sugestão. Embora seja controversa, segundo a APA a maioria dos clínicos está de acordo que pode ser uma poderosa e eficaz técnica terapêutica para uma ampla variedade de condições, incluindo dor, ansiedade e outros transtornos de humor. A hipnose pode também ajudar as pessoas a mudar os seus hábitos. Embora a comunidade científica admita mais a sua utilização é por vezes colocada no mesmo patamar da PNL.

“Perguntas de qualidade criam qualidade de vida. Pessoas de sucesso fazem as melhores perguntas e, como resultado, recebem as melhores respostas” – Anthony Robbins

Coaching

Outra ferramenta reconhecida pela psicologia é o coaching onde o coach ajuda o coachee a ir do ponto A ao ponto B que foi definido pelo cliente (coachee). Nesta abordagem em vez do treinador assumir o poder sobre as pessoas, procura através de questões poderosas que o cliente descubra o poder que tem dentro, que encontre as respostas para os seus problemas/desafios. Ou seja, o coach evita impor conteúdo. Este pressuposto enquadra-se bem na PNL. Daí as vermos associadas frequentemente. Mas ao contrário da PNL, o coaching tem diversas organizações formadoras e métodos variáveis, gerando por vezes abordagens confusas todas categorizadas como coaching.

O coach ajuda a: clarificar e definir adequadamente um objetivo e metas intermédias; identificar o porquê desse objetivo para que durante toda a ação haja força para continuar o caminho; controlar o processo; identificar os obstáculos; identificar recursos humanos e materiais disponíveis para levar a cabo a dita viagem até ao ponto B. É importante perceber que os clientes, os desportistas só necessitam um coach por: falta de disciplina, falta de método e inexistencia de um processo de controlo. Logo, a ação do coach deverá estar focada nesses aspectos e não nos porquês das coisas nem na imposição de formas de atingir os objetivos do cliente. Como o seu trabalho é feito com perguntas é normal que este utilize uma técnica que a PNL chama de meta-modelo.

Uma grande invenção é algo útil, fácil de executar e que faz uma enorme diferença para a humanidade. Não interessa tanto aquilo que é, mas sim aquilo que faz. – Manoj Bhargava

Dos rótulos à intervenção

Por muito que se procure definir, delimitar, estabelecer fronteiras, conceitos, rótulos, no final o objetivo é intervir no sentido de mudar o estado do desportista para que este altere os seus comportamentos no sentido positivo. Perante isto, temos de usar a tecnologia existente e criar formas de intervenção que resultem com utilizadores de ginásios, atletas, desportistas de fim-de-semana e equipas. No fundo, temos de tornar a tecnologia útil.

As ferramentas de intervenção mental necessitam treino na sua aplicação, porque, tal como acontece com as flexões de braços, os resultados só poderão ocorrer com a sua prática regular. A psicologia do desporto, o treino mental faz-se no dia-a-dia e deverá estar integrado em todos os processos de preparação de um desportista.

Agora vamos descobrir como é que a as tecnologias de intervenção mental podem ser úteis para melhorar a adesão ao exercício e o rendimento desportivo dos treinadores e dos praticantes, transformando os problemas em desafios. Utilizando abordagem bio-psico-social do indivíduo e sempre num equilíbrio entre a teoria e a prática.

Bibliografia

American Psychological Association. (2014). Defining the Practice of Sport and Performance Psychology. Retirado de: http://www.apadivisions.org/division-47/about/resources/defining.pdf

American Psychological Association. (2016). Hypnosis Today – Looking Beyond the Media Portrayal. Retirado de: http://www.apa.org/topics/hypnosis/

Dishman, R.K. (1983). Identity crises in North American sport psychology: Academics in professional issues. Journal of Sport Psychology, 5, 123–134.

Dosil, J. (2004). Psicología de la actividad física y del deporte. Madrid: McGraw-Hill.

Fitz, G. W. (1897). Play as a factor in development. American Physical Education Review, 2, p.209-215.

Gallucci, N. (2014). Sport Psychology: performance enhancement, performance inhibition, individuals, and teams (2nd ed.). New York: Psychology Press.

Greenwood, J. (2009). A conceptual history of psychology. Boston: McGraw-Hill.

Martens, R. (1979). About smocks and jocks. Journal of Sport Psychology, 1, 94–99.

Singer, R., Hausenblas, H., e Janelle, C. (2001). A brief history of research in sport psychology. In R. Singer, H. Hausenblas e C. Janelle (Eds.). Handbook of sport psychology (pp. xiii-xix). New York: John Wiley & Sons.

Triplett, N. (1898). The dynamogenic factors in pacemaking and competition. American Journal of Psychology, 9, 507-533.

Weinberg, R. e Gould, D. (2011). Foundations of sport and exercise psychology (5th ed.). Champaign, IL: Human Kinetics.

Witkowski, T. (2010). Thirty-Five Years of Research on Neuro-Linguistic Programming. NLP Research Data Base. State of the Art or Pseudoscientific Decoration? Polish Psychological Bulletin, 41 (2), 58-66.

Zaichkowsky, L. e Perna, F. (1992). Certification of consultants in Sport Psychology: a rebuttal to anshel. The Sport Psychologist, 6, 287-296.

Mr. Burpee

Mr. Burpee
Mr. Burpee
Foto: Popular Science, Feb 1944

Quando aparece uma frase, uma citação, um movimento, um exercício, nem sempre é fácil identificar quem proferiu, quem efetuou, quem criou. E por vezes nem registos existem que permitam atribuir a alguém a autoria. Com o burpee, a situação é idêntica, mas parece que existe alguém cujo nome se transformou num movimento corporal de grande exigência, servindo até de medida para o estado físico de uma pessoa.

Royal Huddleston Burpee, era um fisiologista que criou uma versão mais ligeira do movimento que hoje conhecemos e aplicamos em doses massivas (eu que o diga) nas nossas aulas. Quando o Mr. Burpee criou ou divulgou o movimento nos anos 30, solicitava que o executassem apenas 4 vezes consecutivas como parte de um teste de condição física.

O seu criador nem gostava que o movimento fosse efetuado em grandes doses. Também conhecido como squat thrust, era um movimento em 4 tempos:

  1. Agachar e colocar as mãos no solo.
  2. Saltar para trás mantendo as mãos no solo, para ficar na posição de prancha.
  3. Saltar para à frente.
  4. Voltar à posição inicial ereta.

Curiosidade

Embora eu não saiba a técnica utilizada, o máximo de burpees numa hora, foram 1840 e pertence a Paddy Doyle (UK) desde 1994. Em 12h, Cameron Dorn (USA) conseguiu fazer 5657 burpees. Creio que sem efetuar flexão de braços. Ou seja, mais parecida com o original. Julie Hoffman (Aus) fez 7684 burpees em 24h para angariar fundos para os Heart Kids em 2013.

Pessoalmente faço o burpee desta forma:

  1. Mãos no chão.
  2. Salto para a posição de prancha colocando os pés juntos.
  3. Flexão de braços até “beijar” o solo.
  4. Salto para a frente com as pernas quase totalmente estendidas.
  5. Salto para cima com os braços estendidos acima da cabeça.

E tu? Já fizeste o desafio dos 100 dias 100 burpees?

O melhor que consegui há pouco mais de uma ano atrás foram 6000 burpees em 60 dias com flexão de braços completa no movimento e 11050 burpees em 160 dias.

Fontes:

Tamarkin, S. (2014). A brief history of the burpee. Huffington Post. Recuperado em 10 de Novembro de 2014 de: http://www.huffingtonpost.com/2014/05/02/burpee-history_n_5248575.html

Guiness World Records. Most burpees in one hour. Recuperado em 10 de Novembro de 2014 de: http://www.guinnessworldrecords.com/records-3000/most-burpees-in-one-hour/

http://heartkidsvictas.org.au/hoffy-brakes-world-record-and-raises-80000-for-heartkids/

A musculação não foi inventada agora

As referências da história ajudam-nos a compreender algumas coisas do presente. Por isso, sem querer ser saudosista nem exaustivo, vou mencionar alguns factos, algumas estórias que julgo serem importantes para compreendermos melhor porque é que em 2006 há muitas marcas de equipamentos desportivos e suplementos alimentares, porque é que existem tantos profissionais a venderem produtos e serviços nos ginásios e porque é que surgiram tantos inventores das mais variadas metodologias de treino, de organização de aulas de grupo e outras coisas tais.

Aquilo que nos parece inovador na actualidade, é na maioria das vezes a revitalização de um método ou produto antigo. Uma nova imagem juntamente com modernas técnicas de marketing que nos tentam transmitir a imagem de inovação e criação modernas.

Os feitos de força sempre foram apreciados na nossa civilização. Nem me preocuparia em falar-vos da Antiga Grécia se não fosse atribuído a Milo de Creta (558AC) o registo de ter reconhecido o Princípio da Sobrecarga. Para desenvolver o seu corpo, carregava um jovem touro, um pequeno animal às suas costas para se exercitar. Consoante o animal ia crescendo, também o seu corpo se ía desenvolvendo por resposta ao estímulo progressivamente mais exigente.

4 Séculos A.C. Uma ilustração de um mosaico da Piazza Armerina, apresenta mulheres vestidas numa espécie de bikini, exercitando-se com halteres.

Segundo séc. A.C., o médico Galen, publica na Grécia os seus pensamentos sobre os benefícios terapêuticos do exercício no De Sanitate Tuenda. Nesta publicação ele discutia entre outras coisas a utilização dos halteres e de uma variedade de exercícios de saltos. Serviu de base para outros textos de vários autores até ao séc. XIX.

1544, o educador alemão Joachim Camerarius publica Dialogues des Gymnastica, contendo referencias ao treino com pesos.

18??, Gustav Zander criou uma linha de máquinas de musculação, recomendando um método similar ao de Kellogs (ou Kellogs tinha um método similar ao de Zander?).

1847, Hippolyte Triat, um antigo homem forte dos espectáculos de vaudeville, abriu um ginásio em Paris, como resposta ao crescente interesse pelo exercício físico. Este Ginásio Triat é significativo pois figura como um dos primeiros ginásios a cobrar dinheiro para admitir sócios, tinha quotas diferentes para homens, mulheres e crianças: de 31 francos por.

1841, Sir George Williams criava a YMCA em Londres numa tentativa de substituir a vida das ruas pelo “estudo da Bíblia e a oração”. Esta organização difundiu-se nos EUA como a percursora dos ginásios que conhecemos na actualidade. Todavia funciona como forte organização comunitária, tendo os ginásios como forte pólo dinamizador.

Eugene Sandow era um artista que realizava demonstrações de força por toda a América, acabando por abrir vários clubes destinados à actividade física depois de se ter retirado dos palcos.

O Professor Louis Attila também era um famoso artista e empresário, tinha um ginásio em Nova Iorque que se tornou num local utilizado por grandes levantadores de peso e pessoas famosas da época.

Madame Brennar, que dirigia um ginásio em Londres onde as mulheres utilizavam calças nas suas sessões de treino, utilizava barras com bolas e halteres nas suas sessões de treino. Escreveu um livro: Madame Brennar’s Gymnastics for Ladies, A Treatise on the Science and Art of Calisthenics and GymnasticExercises.

Ou seja, no século XIX, havia aulas de grupo com barras e halteres e já havia ginásios.

As primeiras referências às barras, são de 1860.

1864, John Blundell’s publica The Muscles and Their Story.

1866, abria o Battle Creek Sanitarium inicialmente chamado de Western Health Reform Institute, baseado nos princípios de saúde advogados pela igreja adventista do sétimo dia. Em 1876, o Dr. John Harvey Kellogg tornou-se o superintendente, construindo uma instalação renovada em 1878. Nesta enorme estrutura, as pessoas exercitavam-se e perdiam peso à custa de utilizar clisteres, comer o suplemento alimentar da época: corn flakes, e exercício realizado com máquinas ou em aulas de grupo. Era ainda utilizada terapia de pequenos choques eléctricos para estimular o corpo. Esta impressionante estrutura poderia ser chamada hoje de SPA. Em 1994 foi realizado o filme The Road to Wellville, que retrata as práticas de Kellogg no Sanatorium.

1895 John Harvey Kellogg, o médico que criou os Cornflakes, escreveu um documento intitulado “A Arte da Massagem”. Este documento sugeria um tipo de musculação de execução lenta (oito segundos a levantar o peso), mas também recomendava uma boa técnica de execução sem bloqueios de respiração, etc. Também referia que o objectivo da recreação não era fortalecer os músculos, mas sim regular a circulação.

1898, surge a Sandow Magazine.

No final do séc. XIX, pode dizer que surgem movimentos próximos do actual culturismo. Louis Attila, Eugene Sandow e Charles Samson, participavam em exibições de poses.

No séc XX, as barras de carregar discos, rapidamente ultrapassaram em popularidade as kettlebells, as Indian club, juntando-se aos halteres como uma das ferramentas preferidas de quem se exercitava com pesos. E apesar da criação de máquinas sofisticadas nos últimos anos, continua a ser dos instrumentos mais vendidos.

As barras de carregar discos, da forma como nós as conhecemos, surgiram na segunda metade do século 19, mas anteriormente existiam as barras e halteres de bolas.

1901, Theodore Siebert da Alemanha, começou a comercializar a sua barra universal de carregar discos (Siebert’s Universal-Scheibenstange).

1902 era criada a Milo Barbell Company.

1904, Ms. Beatrice Marshall e Al Treolar realizam uma rotina de poses como vencedores do concurso “The Worlds Most Perfectly Developed Man and Woman”

Joseph Hubertus Pilates, criava nos anos 20 um método de exercício e máquinas, que foram revitalizados na actualidade: Pilates.

Anos 20, Os espectáculos de vaudeville onde actuavam os homens fortes, foi sendo alterado com inclusão de acrobatas e figuras humanas. Muitos acrobatas e ginastas praticavam os seus movimentos em Santa Mónica, California e no final dos anos 30 esse local ficou conhecido como Muscle Beach.

No início do século 20 surge o expansor do peito.

1928, Kaspar Berg introduziu a primeira barra olímpica. Utilizadas pela primeira vez nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, foram então copiadas pela Tork Barbell Company e pela Jackson Barbell Company e vários outros fabricantes.

Josef Weider aparece nos anos 30, criou a sua primeira revista e vendia halteres por correspondência.

193?, Charles Atlas populariza métodos isómetricos.

Um dos grandes proponentes modernos da saúde da mulher foi Jack LaLanne, que conquistou a televisão com o seu programa Jack LaLanne show de 1956-1970 (um dos programas de exercício físico com mais sucesso de sempre na TV). Abriu o seu ginásio em 1936 e por volta de 1982 tinha cerca de 200 nos EUA.

Se LaLanne conquistara a tv, Jane Fonda, a criadora da aeróbica, conquistava o vídeo.

Nos anos 60 as máquinas vibratórias eram muito populares.

Anos 60, Arthur Jones introduziu equipamentos de musculação altamente especializados, bem como um método de exercitação inovador, que viria a revolucionar o fitness. Criou a Nautilus.

Nos anos 80 o culturismo torna-se muito popular com o filme protagonizado por Arnold Schwarzenegger, intitulado: Pumping Iron.

O treino com pesos já vem da antiguidade, os seus benefícios foram popularizados por médicos, artistas de circo e professores. Algumas destas pessoas tentaram ganhar dinheiro com isso e outros até incorreram em charlatanices, chegando ao ponto de venderem produtos, instrumentos que nem eles próprios utilizavam para melhorar o seu corpo. Eugene Sandow e Charles Atlas foram disso exemplo.

O aparecimento de certos meios de comunicação: primeiro os livros, depois as revistas, a televisão em directo, o vídeo, e agora a Internet, permitiram a difusão de práticas e conhecimentos que nos séculos anteriores faziam parte de um círculo restrito de pessoas. No entanto, também trouxeram a necessidade de filtrar a informação para que seja facilmente aplicada por pessoas comuns sem grandes conhecimentos de biologia e anatomia.

Continuamos a utilizar ferramentas muito antigas que continuam a dar bons resultados e as inovações significativas têm sido poucas em termos de funcionalidade. Ocorrem ao nível do design estético e desenvolvem-se na actualidade meios tecnológicos que ajudam na dissociação cognitiva de quem pratica actividade física dentro do ginásio.

Molas, sapatos de ferro, barras de torção, e outros instrumentos, surgiram há largos anos atrás, mas continuam a ser vendidos tal qual existiram pela primeira vez, ou então, sofreriam um novo design que lhes permite voltar a ganhar popularidade.

Actualmente, os Indian Clubs (massas indianas) e as kettlebell estão a ser revitalizadas apesar de serem ferramentas com mais de um século.

Clubes e SPAs que sempre existiram nas mais variadas formas e dimensões, incluindo actividades que continuam a fazer parte dos ginásios actuais: personal training, musculação, aulas de grupo com ou sem aparelhos, Pilates ou Feldenkrais, são apenas alguns exemplos.

Até os suplementos alimentares já vêm de longa data e para recordar, hoje em dia, alguns são simples alimentos de supermercado como os Corn Flakes ou as bolachas com l-carnitina.

Até os reis Eduardo VII e George V de Inglaterra já tinham o seu personal trainer.

Alguns dos princípios em que no baseamos na actualidade foram formulados por pessoas como Hipócrates que dizia: aquilo que se utiliza, desenvolve-se e o que não se utiliza, perde-se.

Estas poucas referências históricas, servem só para recordar que o fitness não é recente nos seus métodos, conteúdos e ferramentas, mas que as formas de comercialização e comunicação se tornaram capazes de lhes dar uma nova dimensão. Cabe aos profissionais e utilizadores dos ginásios filtrar a informação e fazer escolhas com bom senso e com menos influência de modas impostas por pseudo-criadores.

Mais informações históricas também podem ser encontradas no site do Eduardo Fonseca.

Referências: