Motivação e adesão aos ginásios

Por Nuno Couto e Luís Cid

Carlos Silva, Paulo Sena, Nuno Couto e Luís Cid na defesa pública da Dissertação de Mestrado de Nuno Couto
Carlos Silva, Paulo Sena, Nuno Couto e Luís Cid na defesa pública da Dissertação de Mestrado de Nuno Couto

Basta pesquisar um pouco sobre a investigação realizada acerca da Psicologia aplicada ao Exercício Físico, para verificarmos que o tema da motivação é um dos mais aplicados a este domínio. Esta inclusão surgiu pela tentativa de compreensão do comportamento humano neste contexto específico, onde para muitos, o que é hoje, amanhã já não é! Com isto queremos dizer, e como muitos que agora estão a ler este documento sabem, que quando os indivíduos na sua grande maioria iniciam a prática de exercício num determinado ginásio, fazem-no com determinados objectivos de frequência e participação (adesão), o que passado algumas semanas, ou mesmo dias, esses mesmos objectivos são reformulados, e na sua grande maioria, num sentido desajustado à obtenção dos benefícios, quer físicos, quer psicológicos, que uma prática regular proporciona aos praticantes.

Sabendo nós da elevada influência que os estímulos fornecidos pelo contexto exercem sobre o comportamento dos praticantes, fomos aplicar a Teoria da Autodeterminação ao contexto da prática de exercício físico em ginásios, visto ser uma das mais fortes teorias motivacionais que explica o desenvolvimento e funcionamento da personalidade em contextos sociais através de uma conceptualização multidimensional da motivação que assenta num continuum motivacional que oscila entre as formas menos e mais autodeterminadas (extrínseca vs intrínseca), relacionando assim as suas componentes: necessidades psicológicas básicas (autonomia; competência; relação) e a regulação motivacional com a adesão dos praticantes de exercício físico em ginásio. Esta teoria afirma fundamentalmente que o comportamento intrinsecamente motivado é autónomo e autodeterminado, e que não existem dois pólos motivacionais: motivação extrínseca e intrínseca, mas sim um continuum motivacional, através do qual o sujeito regula o seu comportamento. À medida que possui uma maior índice de autonomia, avança-se no sentido da autodeterminação , ou seja, o comportamento intrinsecamente motivado. No entanto, isto não significa que não possa existir a regressão para um sentido mais externo da motivação, basta que para isso exista menor percepção de autonomia na realização do desse comportamento.

Nesta investigação, participaram 102 indivíduos praticantes de exercício físico num ginásio do distrito de Leiria – Portugal, com uma média de idades de 28.75 anos, sendo 52 elementos do sexo feminino e 50 do sexo masculino. Para o estudo, utilizamos a versão portuguesa do Behavior Regulation Exercise Questionaire (BREQ-2) e do Basic Psychological Needs in Exercise Scale (BNESp), instrumentos que permitiram avaliar a regulação motivacional e a satisfação das necessidades psicológicas básicas, respectivamente. A adesão foi medida através do registo informatizado de presenças dos praticantes ao ginásio durante um período de seis meses.

Os principais resultados indicam a não existência de diferenças na satisfação das necessidades psicológicas básicas de autonomia, competência, relação e na regulação motivacional, independentemente do estado de adesão. Aferimos ainda, que a satisfação das necessidades psicológicas básicas e a regulação motivacional, não exercem influência sobre o tempo médio de cada treino, a frequência semanal e o tempo que praticam exercício físico no ginásio.

Verificamos assim, que neste ginásio, não é por ter mais tempo de prática no ginásio, ou ter um tempo médio de treino superior, que se verificava um maior nível de satisfação das necessidades psicológicas básicas e um maior nível de regulação motivacional. Mas em termos práticos, o que isto significa?

A bibliografia diz-nos que o comportamento autodeterminado associa-se positivamente à manutenção da prática de exercício físico, por outro lado, a menor autodeterminação associa-se a regulação externa do comportamento, o que pode ter consequências negativas sobre o estado de manutenção do comportamento. No entanto, no presente estudo, verificámos uma situação contrária neste ginásio. Contudo, durante a investigação percebemos existir uma elevada satisfação das três necessidades psicológicas básicas e razoáveis valores na autonomia do comportamento, resta-nos questionar sobre a possibilidade de, ao longo do tempo, estes comportamentos se manterem.

Assim e de uma forma mais prática desta exposição, resta-nos reflectir sobre a seguinte questão: como se faz para fazer evoluir e manter um comportamento intrinsecamente motivado em praticantes de ginásio?

  • Promover a satisfação das necessidades psicológicas.

Para promover a necessidade de autonomia, deve-se permitir que os praticantes participem na tomada de decisão sobre as actividades do seu programa de exercício, ou seja, é necessário conhecer as necessidades próprias de cada praticante e proporcionar-lhes um maior controlo sobre as suas acções.

Por exemplo: No início, na chamada fase de adaptação do indivíduo ao ginásio, deve-se proporcionar o maior número de actividades para que este conheça, e dê a conhecer os exercícios favoritos, para que na altura de se prescrever o exercício, se faça a inclusão destes no programa. Seja como for, isto não quer dizer que não seja importante e se deva manter os processos funcionais do exercício, necessários para que o indivíduo atinja os objectivos a que se propôs.

Em termos práticos, podemos dar como exemplo o seguinte: no ginásio existem duas bicicletas, uma reclinada e outra vertical, mesmo tendo solicitações fisiológicas diferentes, a inclusão no programa de exercício da opção que mais agrada ao praticante, contribui de forma bastante positiva para a forma como este realiza o comportamento.

Para a promoção da necessidade de competência, deve-se orientar as pessoas para uma busca de desafios de acordo com as suas capacidades, apelando sempre à melhoria das aprendizagens e superação pessoal.

Por exemplo: como instrutor, sei que determinada pessoa não possui capacidades coordenativas desenvolvidas o suficiente para que possa realizar uma actividade mais técnica (por exemplo: uma aula de step ao power jump, então porquê recomendar que faça este tipo de aulas, para proporcionar sentimentos de incompetência? Neste ponto parece que entro em contradição com o exemplo dado para o caso da autonomia, pois disse que se devia de experimentar tudo. Mas não é disso que se trata, pois se quem acompanhar o praticante, o prepara para o que possa acontecer. Coloquemos uma situação hipotética relacionada com o facto de um praticante (a Maria ou o Manuel) vai ter dificuldades na minha aula de step porque tem dificuldades coordenativas, então tenho que a preparar para o que possa acontecer:

“A Maria sabe como é uma aula de step? Numa fase inicial pode parecer confusa esta mudança de movimentos entre o solo e o step, mas se sentir alguma dificuldade é perfeitamente normal. É normal que veja os outros praticantes virados para um lado e você para outro, no entanto, se continuar a frequentar esta aula, irá verificar que se vai sentir mais à vontade e que conseguirá acompanhar a coreografia.”

Este tipo de diálogo prepara o indivíduo para o que possa acontecer, tomando logo à partida consciência do factor negativo, havendo logo à partida uma preparação pré-pratica que engloba uma situação menos positiva da prática. Não sendo intenção deste artigo, é fundamental como a maioria dos instrutores de fitness sabem, o acompanhamento durante a aula, sendo este bastante importante para a promoção e manutenção do sentimento de competência:

“Boa Maria! O movimento mais difícil já está, agora melhora a posição dos braços para ficar excelente….isso mesmo, muito bem!”

Este reforço promove a promoção do sentimento de competência e além disso, deixa o praticante sem o receio de ser incompetente na execução técnica.

Relativamente à necessidade de relação, é importante que os indivíduos em contexto de exercício físico possam estabelecer relacionamento (s) com os que se identificam mais, com um sentimento de vínculo com os outros, deve-se manter a relação de bem-estar, segurança e a unidade com os membros de uma comunidade.

Por exemplo: apresentar o indivíduo aos outros praticantes é fundamental para que isto possa acontecer. Por exemplo: os instrutores que encaminham uma pessoa pela primeira vez a uma passadeira, e ao lado está alguém que já conhecemos, porque não fazer a apresentação? “Dona Ana, hoje vamos começar aqui na passadeira….” e quando chegamos junto à passadeira, podemos fazer referência à pessoa que está  ao lado “….hoje fica aqui junto do Srº João, sabe ele é perto da sua terra…” esta pequena ligação possibilita quebrar logo ali uma barreira, mas existe um senão: há que perceber se neste caso o Srº João se interessa ou está disposto para este tipo de diálogo.

Durante as aulas de grupo, porque não promover a interacção entre os alunos? Existem modalidades pré-coreografadas que já contemplam este tipo de comportamentos, mas pode-se criar determinados movimentos em aulas que podem ser realizados com interacção com diversos elementos, promovendo um sentimento de relação e integração com outros praticantes no ginásio.

No entanto, e na continuação da promoção de uma motivação autónoma (mais autodeterminada) associa-se 2 tipos fundamentais de regulação do comportamento:

1)      Motivação Identificada: através da qual o sujeito aceita o comportamento como pessoalmente importante, identificando-se com o seu objectivo e valor;

2)      Motivação Intrínseca: através da qual o sujeito realiza o comportamento apenas pelo prazer, divertimento e satisfação que lhe está inerente.

Estratégia 1: Explicar as Razões/Propósitos das Actividades/Exercícios

Objectivo: Atribuir um sentido à actividade/exercício e potenciar uma percepção clara e correcta daquilo que se está a fazer e o porquê de se fazer, permitindo que os praticantes possam atribuir importância e valorizarem a actividade/exercício.

Por exemplo: (através da forma e conteúdo da comunicação/acção para com os praticantes): O que se deve fazer/dizer: “Este exercício vai permitir desenvolver os músculos que estão na base de sustentação da postura”; “Ao realizar a actividade a um ritmo menos intenso irá proporcionar uma diminuição do impacto sobre as articulações”; “Se aumentar o volume da carga para níveis inabituais aumentará o risco de lesão e o surgimento de contracturas (dores) musculares”. O que NÃO se deve fazer/dizer (apenas): “Olá a todos! Vamos começar a aula?”; “Ao fazer abdominais não ponha as mãos atrás da cabeça”; “Não incline o tronco à frente no agachamento!”; “Agora vamos subir e pedalar em pé durante 10 minutos!”.

Estratégia2: Identificar Aquilo que os Praticantes Gostam de Fazer

Objectivo: Potenciar a prática de actividades/exercícios que sejam agradáveis ao praticante, aumentando o prazer pela sua realização.

Por exemplo: (através da forma e conteúdo da comunicação/acção para com os praticantes): O que se deve fazer/dizer (ou perguntar): “Diga-me lá uma coisa: de tudo aquilo que já experimentou o que é que gosta mais de fazer?”; “De todos os exercícios do seu programa, quais são aqueles que lhe custam mais fazer (aqueles que gosta menos)?”; “Hoje não lhe apetece fazer este exercício/aula ? Então arranjamos uma alternativa!”; “Quer mudar o seu programa de exercício?”. O que NÃO se deve fazer/dizer: “Tem de ser! Não pode fazer só aquilo que gosta!”; “Se não doer, não faz efeito!”; “Não existe outra forma, só conseguirá atingir os seus objectivos se fizer o que está no programa”.

Em suma, devemos:

  • Promover a Identificação com o Exercício (a valorização do exercício como pessoalmente importante para o praticante, reforça o compromisso com a actividade praticada);
  • Proporcionar o Divertimento (o ser humano repete o que é agradável e rejeita o que não é – o exercício tem de ser divertido para quem o faz).

Este tipo de comportamentos por parte dos instrutores e professores em contexto de ginásio, permite a satisfação das necessidades psicológicas básicas, logo a promoção de um comportamento mais autodeterminado, sendo fundamental para a manutenção dos praticantes de exercício físico, evitando por vezes a regressão de um comportamento com satisfatória autonomia para indicadores menos autodeterminados.

Assim, afirmamos que o ambiente que é desenvolvido no ginásio, é determinante para retenção dos praticantes, sendo este fundamental para o crescimento e integração do comportamento cada vez mais autónomo e autodeterminado, para tal, à que saber desenvolver situações capazes de promover no maior número de praticantes a desejada manutenção.

Nuno Couto

nunorpcouto@gmail.com

Mestre Psicologia Deporto Exercício pela ESDRM. Instrutor Power Jump / Cardiofitness. Treinador Futsal. Professor Actividade Física Escolar – Extra Curricular

Luís Cid

luis.filipe.cid@sapo.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

50 acções para fazer crescer o seu ginásio

  1. Adquirir um medidor de pressão arterial e realizar algumas actividades em torno do aparelho: dia mensal de medição da pressão arterial, palestra anual sobre a hipertensão e exercício, criar um folheto sobre a pressão arterial onde esteja o logo e o contacto do ginásio, etc.
  2. Agendar periodicamente (mas não de forma rotineira), sessões de treino de funcionários (abordar os temas dos: procedimentos, problemas de serviço, falhas no sistema, etc.).
  3. Dedicar um mês a um tema relacionado com serviço a clientes e exigir aos funcionários maior atenção a esse tema (ex: comunicação, lidar com reclamações, escuta activa…)
  4. Criar o diário de vida do ginásio (definir os itens a incluir).
  5. Definir um local para expor todas as memórias do clube (fotos de momentos importantes e de eventos especiais, bem como de certas comemorações; os chamados “elementos culturais”).
  6. Inscrever-se no próximo campeonato de remo indoor e aderir às actividades gratuitas dinamizadas pela Concept II.
  7. Dinamizar um blogue na Internet onde os sócios apareçam com frequência. Aqui ficam 3 websites de ginásios considerados como bons exemplos ao nível da retenção e serviço:
    1. www.ghfc.com
    2. www.acac.com
    3. www.myfrancos.com
  8. Criar um portfolio com o registo de todos os momentos importantes do clube, todas as datas comemoradas, todos os objectivos atingidos (divulgar alguns desses momentos no local de exposição do clube definido para o efeito).
  9. Divulgar os recordes do ginásio (seja em termos de performance, longevidade, frequência, grandes feitos, etc.).
  10. Realizar um curso de primeiros socorros para todos os funcionários do clube.
  11. Incentivar todos os funcionários a frequentarem um programa de exercício regular.
  12. Incentivar todos os funcionários a experimentarem TODAS as actividades e serviços do clube.
  13. Simplificar todo o tipo de procedimentos do ginásio.
  14. Assinalar dias/datas especiais do calendário (ver: http://civica.wordpress.com/datas-importantes/)
  15. Editar uma newsletter mensal. Basta apenas uma folha (duas páginas) para começar.
  16. Criar a equipa da diversão (um conjunto de funcionários, podendo ser rotativo ou não) para manter alegria e brincadeira todo o dia no clube, sem perder os princípios fundamentais de treino e sem “abandalhar” o sistema.
  17. Acreditar nas pessoas (sejam funcionários ou clientes).
  18. Ser diferente dos outros ginásios pela relação com os clientes e não apenas nos logotipos ou instalações.
  19. Definir os seus próprios standards de serviço, de atendimento, de performance (definir o que é ser bom, o que é fazer bem no nosso clube).
  20. Manter os sistemas de funcionamento simplificados. Os sistemas de controlo e todos os outros sistemas implantados no clube deverão ser flexíveis e muito simples.
  21. Ser maior nem sempre é melhor: não confundir quota de mercado com lucro. Nem sempre o clube que tem mais sócios é o que factura mais. Nem sempre o clube que tem mais sócios é aquele que perdura no tempo.
  22. Quando o sucesso é um facto, não se pode esquecer que há sempre detalhes para melhorar.
  23. Concentre-se no desenvolvimento dos pontos fortes e no controlo dos pontos fracos.
  24. Liderar através do exemplo.
  25. Cumprir sempre as promessas pessoais e do clube perante os clientes.
  26. Demonstrar interesse e preocupação para com as pessoas. É mais importante do que os conhecimentos técnicos que temos.
  27. Praticar a escuta activa.
  28. Contratar pessoas com sentido de humor.
  29. Contratar pessoal pela atitude e não pelos skills (estes podem ser treinados e melhorados).
  30. Tratar toda a gente com carinho e igual respeito; nunca se sabe com que se está a falar.
  31. Acabar com a burocracia: terminar com as reuniões desnecessárias, minimizar o papel e simplificar a comunicação interna (entre funcionários) e externa (entre o clube e os potenciais clientes, entre o clube e os clientes, entre o clube e a comunidade, entre o clube e os media).
  32. Antecipar situações inesperadas.
  33. Ser flexível: ajustar procedimentos e regras para melhorar a relação com funcionários e clientes.
  34. Lidar com pessoas, não com cargos que ocupam.
  35. Actuar como se fosse o dono do ginásio.
  36. Não actuar como uma vítima. Há sempre algo que podemos fazer para marcar a diferença.
  37. Confiar nos outros. Isso dir-lhes-á que você é de confiança e eles actuarão em conformidade.
  38. Valorizar os funcionários.
  39. Dar mais responsabilidade às pessoas para desenvolverem os seus pontos fortes e para crescerem.
  40. Traçar novos caminhos em vez de simplesmente imitar os outros.
  41. Preparar as pessoas para tomarem decisões definindo claramente a cultura do clube, a visão e os valores (os seus e os do clube (por ex: se valoriza a saúde e funcionalidade, deverá evitar grandes apelos à estética e toda a gente deverá actuar em conformidade).
  42. Alinhar os sistemas, políticas e práticas com os seus valores.
  43. Medir, recompensar e reconhecer os funcionários que protegem e promovem a cultura (valores, rituais, mitos, crenças, memórias, símbolos, etc) da empresa.
  44. Desenvolver um sincero interesse em cada membro da empresa (cada membro da família).
  45. Criar um grupo responsável por promover e proteger a cultura organizacional do ginásio.
  46. Tornar-se um contador de histórias para a sua empresa e para a sua família.
  47. Utilize as celebrações para criar memórias.
  48. Faça com que as celebrações reconheçam as coisas importantes, aquilo que valoriza.
  49. Deixe que as celebrações ofereçam a oportunidade às pessoas de dizerem olá e adeus (dar as boas vindas aos novos que chegam e desejar boa sorte aos que partem para outro local). Isto aplica-se a funcionários e clientes.
  50. Utilize as celebrações para construir relacionamentos interpessoais.

Mais Leituras

  • Almeida, S. (1993). Cliente nunca mais, 7ª ed. Salvador: Casa da Qualidade.
  • Almeida, S. (1995). Cliente eu não vivo sem você. Salvador: Casa da Qualidade.
  • Carlaw, P. & Deming, V. K. (1999). The big book of customer service training games. New York: McGraw-Hill.
  • Croce, P. (2004). Lead or get off the pot! New York: Fireside.
  • Freiberg, K. & Freiberg, J. (1998). Nuts! Southwest Airlines’ Crazy Recipe for Business and Personal Success. New York: Broadway Books.
  • Harris, J. (1996). Getting employees to fall in love with your company. New York : AMACOM.
  • Lundin, S., Christensen, J., Paul, H. & Strand, P. (2004). Fish! Ou a arte de motivar. Lisboa: Presença.
  • Michelli, J. (2008). The New Gold Standard: 5 Leadership Principles for Creating a Legendary Customer Experience Courtesy of the Ritz-Carlton Hotel Company. New York: McGraw-Hill.
  • Peters, T. (1999). The brand you50: fifty ways to transform yourself from an “employee” into a brand that shouts distinction, commitment, and passion! New York: Borzoi Book.
  • Peters, T. (1999). The professional service firm50: fifty ways to transform your department into a professional service firm whose trademarks are passion and innovation! New York: Borzoi Book.
  • Plummer, T. (1999). Making money in the fitness business. Los Angeles: Fitness Management Books.
  • Plummer, T. (2003). The business of fitness: understanding the financial side of owning a fitness business. Monterey: Healthy Learning.
  • Snow, D. (2008). Lessons from the Mouse: A Guide for Applying Disney World’s Secrets of Success to Your Organization, Your Career, and Life. DC Press.
  • Spector, R. (2001). Lessons from the Nordstrom way. New York: John Wiley & Sons.

A actual indústria do fitness: algumas ideias

Há mais de 20 anos que frequento ginásios. Algumas coisas mudaram. Melhores equipamentos, instalações mais atractivas e de grandes dimensões, mais mulheres a frequentarem as salas de musculação… E os serviços? Mudaram? Ou permanecem idênticos? Mudaram os processos de forma significativa? De forma a fidelizarem os clientes…

Não me cansarei de dizer que os ginásios têm a sua sobrevivência e sucesso completamente dependentes da retenção dos seus sócios. Se a retenção de sócios não melhora, o tempo médio de vida dos ginásios será curto: 5 ou 6 anos talvez.

Para melhorar a retenção, todos os processos, desde o marketing, remuneração de funcionários, comercialização, até ao funcionamento diário, tudo deverá estar centrado nos clientes. Como diria Seth Godin, temos de criar tribos em torno de algo significativo. Aquilo em que os ginásios têm de fazer, é centrarem-se mais no estilo de vida das pessoas, focarem a sua acção na mudança de hábitos de vida, intervir cada vez mais na comunidade que os rodeia, fortalecer a relação das actividades com a saúde, adaptar aulas aos alunos e não o contrário.

As cadeias de ginásios têm de ser “pronto-a-vestir”, mas os outros ginásios devem aproximar-se cada vez mais de “alfaiates” e “modistas” (desses, tenho visto poucos). Na retenção está o lucro. A riqueza reside na manutenção dos clientes a longo prazo. Para isso têm de conquistar as pessoas uma a uma e ver os clientes como pessoas. Algumas posições na organização de um ginásio têm de ser atribuídas a líderes e não a gestores, porque este negócio é baseado em pessoas… Serviços… A função do ginásio é criar soluções para resolver os problemas das pessoas.

Os mercados das pessoas acima dos 40 anos são sem dúvida os mais importantes no momento presente e nas futuras décadas. Mas os ginásios actuais ainda não se aperceberam disso. Costumo comparar os ginásios às discotecas, devido ao tipo de ambiente e ao público-alvo com que insistem em trabalhar. Mas para mudar o público-alvo, a imagem dos ginásios perante o publico (que já mudou algo) tem de mudar muito mais.

Nós somos um País seguidor, não somos criadores e dificilmente podemos fugir às tendências mundiais. No entanto, elas não chegam ao mesmo tempo a que chegam a outros Países. Durante esse período de tempo é possível que os donos dos ginásios se antecipem a criar respostas adequadas às tendências que estão para chegar. Daí a importância de frequentar as grandes feiras mundiais e procurar informação actual.

Outro aspecto importante á a contratação de pessoal. A atitude torna-se muito mais importante nesta área de trabalho. A comunicação e a capacidade de criar bons relacionamentos, são características a procurar em candidatos a trabalhar em ginásios. Tendo nós em Portugal, muitos licenciados em ed. física com uma formação generalista na actividade física, podemos facilmente levar o ginásio para o exterior, dando a conhecer não só as actividades, mas dinamizando novas actividades alternativas para sócios e potenciais clientes.

Por outro lado, há bons exemplos de negócios de pessoas, negócios de serviços em Portugal e temos de deixar de ter medo de adaptar boas práticas de outras áreas.

Acima de tudo, se continuarmos a fazer as mesmas coisas que temos feito até aqui (e temos repetido demasiado nos últimos 20 anos), continuaremos a ter os mesmos resultados: retenções de 20 a 30% e uma enorme necessidade de colmatar essa fuga de clientes com preços baixos e marketing agressivo, esquecendo que lidamos com pessoas e não simplesmente números.

Outro aspecto importante em Portugal, é que a iniciativa municipal e do estado, no fitness, ainda está a dar os primeiros passos e pode mesmo ser um gigante adormecido. Espanha e França são dois exemplos fortes dessa iniciativa. Mas os privados, em vez de receio, devem entrar em parcerias porque conhecimento específico e experiência do mundo do fitness.

Esta visão deste negócio do “fitness”, pode resumir-se nestas ideias:

  • Os ginásios têm de ajudar as pessoas a incorporar a actividade física nas suas vidas.
  • O core business é cardio e musculação (são vendidos sob vários formatos, mas resumem-se apenas  a isso), mas… Podem intervir fortemente noutras áreas relacionadas com estilo de vida.
  • Ligar actividade física e saúde (qualidade de vida) é um posicionamento forte e mais seguro do que a ligação com a estética.
  • Colocar a estética em segundo plano (em vez de a apresentar como alvo de intervenção de primeiro plano; o exercício físico consegue grandes e rápidas alterações funcionais, mas estéticas… Nem por isso. Logo, anunciar estética diante de tudo, é mentir e cair em descrédito).
  • Não abdicar dos princípios de treino (pois são a base para que as pessoas tenham resultados e pessoas com resultados nunca desistem).
  • Grande dinâmica social (dentro e fora do ginásio).
  • Aposta em marketing interno versus externo (aí reside a solução para vender sem esforço).
  • O boca-a-boca é a estratégia mais importante quando trabalhamos bem (clientes nossos vendedores e advogados).
  • Somos aquilo que fazemos repetidamente (não é suficiente, dizermos que somos bons, que fazemos isto e aquilo, que temos serviços para todos quando, na prática, não temos nada). Publicidade (é dizer: – Eu sou bom) vs Relações Públicas (conseguir que os outros digam que nós somos bons).
  • As pessoas marcam a diferença nesta indústria (temos de as contratar pela atitude, pelos valores em vez de simples qualificações de CV).

Temos de ser cozinheiros e não criadores de receitas, alfaiates em vez de lojas de pronto a vestir.
Não podemos agradar a todos os públicos. Mas há espaço para diferentes formas de intervenção neste negócio.

Actualmente, o risco de fazer diferente, é de facto muito baixo, por isso, não sei o que estão à espera 🙂

Só mais uma coisa: se não tiverem paixão por aquilo que estão a fazer, se não gostarem de colocar as pessoas em primeiro lugar… Mudem de ramo de actividade!

Links interessantes:

O Gainesville Health & Fitness Center*

1680 dias!

Há 20 anos atrás, quando terminei o Ensino Secundário, nem nos meus sonhos mais incríveis imaginaria que, um dia, viria a efectuar um Mestrado e muito menos a elaborar uma tese de Doutoramento. Sempre tive uma orientação para o lado humano e social, sempre me agradou a psicologia e a forma como se poderiam compreender e modificar os comportamentos e pensamentos das pessoas, sobretudo dos fantásticos desportistas que eu via nas transmissões televisivas. Creio que foi nessa altura, que se lançou a semente do interesse pela conduta humana desportiva, a qual floresceu na redacção da tese que conduziu à obtenção do grau de Doutor. Passo a explicar. Há 20 anos atrás, escrevia o meu primeiro texto de psicologia desportiva relacionada com futebol, devido às minhas funções de preparador físico numa equipa juvenil. Nessa mesma altura, inscrevia-me num ginásio de musculação pela primeira vez, para me reabilitar de uma cirurgia à coluna vertebral. Cultivaram-se assim as sementes: desporto, ginásios e psicologia.

Veio depois uma licenciatura em educação física e desporto, foram as forças do destino? Desisti da licenciatura em Engenharia Civil e entrei no meio do desporto. Mais tarde, com o meu trabalho em part-time como professor de musculação, em busca de respostas, lancei-me no primeiro Mestrado em Gestão Desportiva da Universidade do Porto. Realizei então, uma tese sobre psicologia organizacional em ambiente de ginásios. Nessa altura, já fazia mais sentido a escolha da Universidade de Vigo para realizar um Doutoramento. Não um Doutoramento qualquer, mas algo sobre pessoas, relações humanas, desporto, ginásios, comportamentos, pensamentos. Aqui estava tudo: uma tese sobre adesão aos ginásios.

Durante estes 1680 dias que decorreram desde a primeira sessão do curso de Doutoramento com o Prof. Robert Singer, fui concretizando a ideia de conhecer mais sobre o meio em que estou por paixão inserido há cerca de 20 anos: os ginásios. Foram dias de aulas, discussões, conversas com professores que nos estimularam o pensamento crítico, que nos incentivaram a inovar. A realização de pequenos trabalhos, foi afunilando o tema desta tese, embora aos 38 anos ainda tenha esta mania de ser irreverente ou ingénuo, esta mania de querer mudar o mundo, o objectivo inicial de querer filmar, entrevistar, reunir com professores e donos de ginásios, foi-se transformando apenas numa pedra para a construção de algo maior. Sim, porque quando começamos vemos tudo fácil, mas depois, os constrangimentos de tempo, dificuldades e ajudas, mudam por completo a imagem.

Devo dizer que aprendi mais pelo processo de realização deste trabalho do que pelo seu resultado final. Quando termino de escrever um texto, vejo tudo de forma diferente do que quando o iniciei. Foi nesse processo que surgiram as grandes dificuldades em obter informação, nos contactos, nas facilidades ou dificuldades colocadas pelos ginásios, na “guerra” com a estatística, na procura de tempo para trabalhar, na conjugação de horários com a família, com a profissão de professor do Ensino Secundário que pouco facilita, na coordenação de todas as actividades familiares, pessoais e profissionais para chegar ao fim. Disso se trata neste momento, chegar ao fim de uma maratona, com a consciência de ter dado o meu melhor mediante as condições que encontrei.

Apresentando a tese!
Apresentando a tese!

Assim, se entregou o documento final, o qual ficou a aguardar pela defesa pública, agora tornada possível, depois de algumas alterações nos membros do tribunal, fica para a história o orgulho de ter tido estes 5 ilustres Professores Catedráticos:

  • Alfonso Barca Losano – Faculdade de Ciências da Educação – Universidade da Coruña
  • Manuel Deaño Deaño – Faculdade de Ciencias da Educação – Universidade de Vigo
  • Agustin Dosil Maceira – Faculdade de Psicologia – Universidade de Santiago de Compostela
  • Jorge Mota – Faculdade de Ed. Física – Universidade do Porto
  • Constantino Arce Fernandez – Faculdade de Psicologia – Universidade de Santiago de Compostela
Alfonso Barca, Manuel Deaño, Agustin Dosil, Paulo Sena, Jorge Mota, Constantino Arce e Joaquin Dosil
Alfonso Barca, Manuel Deaño, Agustín Dosil, Paulo Sena, Jorge Mota, Constantino Arce e Joaquín Dosil

Do outro lado, Joaquín Dosil, o director do trabalho, tal qual um treinador que aguardava o desenvolvimento do trabalho do seu atleta em campo. Uma exposição de 30 minutos, 60 minutos de comentários e perguntas do tribunal e mais 30 minutos de respostas e comentários por parte do atleta. Duro! Intenso! Acima de tudo, muito emocionante, surpreendente e com um final feliz.

Depois de 1680 dias marcados por muito trabalho condicionado por motivos familiares e profissionais, conseguimos o grau de Doutor. Foi um dia lindo a todos os níveis, Sol, frescura da manhã, a luminosidade das instalações, uma sala aconchegante, nervosismo quanto baste, problemas logísticos, mas… Hablando Castellano elogiado pelo tribunal, lá foi possível defender a nossa tese à qual foram apontadas algumas correcções, embora, fosse altamente premiada com comentários que eu não estava à espera. O diário da Universidade de Vigo publicou a notícia. Para trás ficaram muitas pestanas queimadas, muitos quilómetros percorridos e… E… É melhor esquecer porque já chegamos a este ponto bonito que nunca imaginariamos chegar em sonho: SOBRESALIENTE CUMLAUDE por unanimidade. Obrigado a todos os que directa ou indirectamente colaboraram na criação desta realidade.