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Os registos de treino: como controlar o treino

Abril 5, 2010 Paulo Sena 1 comentário

O único verdadeiro erro é aquele do qual não aprendemos nada.

-John Powell

Quando um aluno melhora a sua performance em termos de força, resistência e capacidade de recuperação, o seu corpo modifica-se, tornando-se mais funcional. No entanto, essas alterações não são, na maioria das vezes, visíveis em termos estéticos.

Tanto professores como alunos, apenas podem verificar a eficácia de um programa de treino quando existe um registo rigoroso desse mesmo treino. Existem algumas variáveis imprescindíveis a registar, para:

  • saber se melhorou ou piorou,
  • visualizar melhor a sua evolução,
  • o professor verificar possíveis motivos de insucesso do programa de treino,
  • uma questão de motivação,
  • estabelecer objectivos baseados em aspectos mensuráveis,

Duração do Treino

A duração do treino não deverá exceder muito os 60 minutos; quando a duração diminui e todos os pesos e repetições se mantêm, isso é sinal de melhoria, ou seja, o aluno conseguiu efectuar os mesmos movimentos, o mesmo trabalho em menos tempo, o que provoca algum impacto e possíveis mudanças no funcionamento do corpo; a consequência disto é fácil de verificar: se não houver registo da duração do treino, poderá haver uma ilusão de que a performance melhorou, quando de facto isso não aconteceu. Um treino com os mesmos exercícios, as mesmas repetições e as mesmas cargas, efectuado em 60 minutos, é diferente do mesmo treino efectuado em 70 minutos.

Datas dos treinos (frequência)

A frequência é fundamental para que os estímulos do treino vão produzindo resultados. Serve para verificar a frequência de treino e saber se o número de treinos deve manter-se, diminuir ou aumentar para que o progresso continue.

Exercícios

A ordem dos exercícios permite saber porque é que nos cansamos mais em alguns grupos musculares do que outros; diferentes sequências de exercícios podem aplicar estímulos com maior ou menor intensidade numa determinada zona do corpo.

Repetições e Peso

As repetições e o peso em cada exercício são o espelho da evolução, do progresso do aluno. Aqui o rigor deverá ser extremo, pois a velocidade de execução não pode ser contabilizada e como sabemos, é completamente diferente efectuar o exercício com 6 segundos por repetição do que em 2 segundos por repetição. É diferente em termos de eficácia e sobretudo segurança. Por isso, convém que todas as repetições efectuadas e registadas sejam de forma correcta.

Posição dos Bancos e Outros Ajustamentos

As posições dos bancos permitem o alinhamento correcto das articulações e/ou a amplitude total de movimento do exercício. Posições erradas podem resultar em lesão ou num estímulo menos eficaz, sobretudo no trabalho com máquinas de resistência variável, tipo Nautilus™ ou Med-X™

Frequência Cardíaca e/ou Escala de Esforço

A frequência cardíaca, é juntamente com a escala de esforço, a forma de controlar a intensidade do seu treino. Só assim, se pode verificar se encontra dentro ou fora da sua zona alvo de treino. Não basta dizer que a pulsação nunca passa das 120. Não se esqueça que diferenças de 10 a 20 pulsações por minuto, podem ter um grande significado (esta situação intensifica-se se a idade for mais avançada) em termos de efeitos de treino. Pulsações demasiado elevadas podem ser perigosas e pulsações demasiado fracas não colocam grande estímulo ao seu corpo, significando portanto tempo perdido.

Resistência ou Velocidade

Apesar da frequência cardíaca ser um variável importante, a velocidade, a resistência ou as rotações por minuto das máquinas cardiovasculares dão indicações preciosas, senão vejamos: podemos ter um registo de 120 pulsações a 8 km/h em Janeiro e depois podemos passado 3 meses ter a mesma pulsação com 9 km/h. Uma situação destas assinala um progresso muito bom.

Algumas Recomendações Para os Utilizadores de Ginásios

O registo de treino é como um mapa do caminho que estamos a criar!

Paulo Sena

Quando se termina um programa de treino convém que o professor verifique aquilo que sucedeu com o programa anterior (algo que este só poderá efectuar caso exista um certo rigor no registo das variáveis anteriormente referidas). Só depois será possível criar com algumas contribuições do aluno um programa para as suas necessidades.

Não se esqueça de seguir o programa e de executar os movimentos de forma adequada. O professor não poderá ser responsável pelos resultados de um programa onde o registo não existe ou um programa onde os movimentos foram efectuados de forma muito acelerada e sem cuidados posturais.

São apenas dois minutos de tempo que perde no registo diário de treino e horas de treinos mais seguros e eficazes que você terá pela frente com o simples gesto de registar a sua performance do dia.

Na tabela seguinte apresenta-se um exemplo de um extracto de um registo diário de treino. Temos variáveis como: a data; a duração total do treino de musculação; por cada exercício temos: posição do banco ou outros ajustamentos das máquinas (P), as repetições completas efectuadas, o tempo em carga, o peso utilizado e a frequência cardíaca máxima; os totais de repetições, tempo em carga e peso, bem como a média das frequências cardíacas máximas; e ainda o tempo total de repouso, ou seja, a duração menos o tempo total em carga. Um registo deste tipo é fácil de levar a cabo pelo colega de treino e permite um controlo muito superior a qualquer registo tradicional. Não é perfeito e entre outras falhas não permite: saber qual a duração de cada repetição na subida ou descida do peso, pois apenas sabemos a duração de um número de repetições; os descansos entre cada um dos exercícios de forma individual. Quando treinamos sozinhos também podemos controlar todas estas variáveis com excepção do rigor do início e final do exercício. Para controlar a frequência cardíaca necessitamos de um monitor de frequência cardíaca. No entanto, com o utilizador comum podemos eliminar a coluna do tempo e da frequência cardíaca. No entanto, para haver rigor será necessário uniformizar a velocidade de execução das repetições, ou seja, não será adequado efectuar a primeira repetição em 20 segundos e a última em 5 segundos. Neste registo poderão ser ainda acrescentadas as variáveis do treino de endurance, registando variáveis como o exercício, a duração, velocidade ou nível de resistência e a frequência cardíaca máxima.

No caso de não termos um colega de treino que possa controlar o tempo e a frequência cardíaca máxima em cada exercício, é sempre possível manter todas as outras variáveis.  Nos downloads podem encontrar alguns exemplos de fichas de registo de treino.

Exemplo do registo de um treino.

O trabalho com populações especiais

Por populações especiais consideram-se entre outras as seguintes: hipertensos, obesos, diabéticos, crianças, pessoas com problemas na zona lombar, doentes coronários, osteoartríticos e grávidas. Estes grandes grupos aparecem com certa frequência nos ginásios e têm um problema já diagnosticado que os pode limitar na execução de alguns exercícios, impedir a execução de outros e por vezes exigir o aumento da frequência de certos movimentos.

Uma boa triagem e estratificação inicial dos riscos são fundamentais para organizar os vários tipos de alunos que aparecem com vontade de efectuar actividade física. Para isso é necessário verificar a existência ou não de factores de risco para as doenças coronárias e depois classificar os alunos nas 3 categorias de risco:

  1. Aparentemente Saudáveis: indivíduos que são assintomáticos e aparentemente saudáveis com não mais do que um factor de risco coronário
  2. Risco Aumentado: indivíduos que têm sinais e sintomas que sugerem uma possível doença cardiopulmonar ou metabólica e/ou dois ou mais factores de risco coronário
  3. Doença Diagnosticada: indivíduos com uma doença cardíaca ou pulmonar diagnosticada

Após esta classificação, temos de efectuar um trabalho de prevenção com os do segundo e os do terceiro grupo, como é o caso das populações especiais. Isso significa na maioria dos casos um trabalho com uma intensidade abaixo dos 60% da frequência cardíaca máxima (Frequência Cardíaca Máxima = 220-Idade), uma vez que esta é a intensidade com que os alunos efectuam as actividades do seu dia a dia.

Para muitos destes indivíduos, continuar inactivo, significa continuar a engordar e a atrofiar os músculos, com todas as implicações colocadas por essa situação. Como tal, convém sempre que possível evitar uma paragem total (ser sedentário não ajuda), o professor tem de procurar deixar o aluno à vontade, criar uma relação aberta de forma que este refira qualquer sensação indesejada ou fora do comum.

O médico deverá então procurar indicar movimentos proibidos ou aconselhados e deverá propor a intensidade a que o seu paciente pode exercitar-se. Mas isso não significa que deva ser o médico ele a efectuar a prescrição do exercício, mas sim, indicar limitações em termos de movimentos anatómicos, limitações em termos de amplitude articular e recomendar frequências cardíacas, cuidados alimentares, bem como alguns cuidados a nível de motivação e tipo de liderança do exercício para o seu paciente.

Muitas das vezes, é possível que o professor escreva o conteúdo e intensidade do treino, para que o aluno leve ao médico e este tome conhecimento, retirando ou acrescentando algo, autorizando ou não parte ou a totalidade do programa de treino escrito. Isto sem contar com outros factores como o equipamento que vai ser utilizado, o espaço e com quem vai ser efectuado o programa de treino.

Outra recomendação importante para as populações especiais é saber se elas têm conhecimento dos procedimentos de emergência inerentes ao tipo de doença que padecem.

E, como em todo o processo de treino levado a cabo por um bom professor, é importante que, sempre que nos deparamos com uma situação nova, procuremos informação sobre ela, para dar uma melhor resposta ao segundo encontro. Com o aluno podemos não saber muita coisa quando nos aparece um hipertenso, mas um trabalho de prevenção efectuado como anteriormente se referiu a 40 a 60% da frequência cardíaca máxima, um bom estudo da doença através da leitura e do contacto com profissionais que dominem a área, vai permitir num segundo e terceiro encontro com o aluno, dar uma resposta segura e profissional.

Triagem e estratificação de risco

Quando os nossos alunos chegam ao ginásio pela primeira vez, não os conhecemos. Existem pessoas saudáveis, mas outros têm algumas limitações funcionais, apesar de aparentarem estar de boa saúde. E o contrário também acontece. Pela sua aparência não conseguimos saber se têm problemas cardíacos ou saber se têm problemas articulares, pela sua aparência não conseguimos saber se têm ou não limitações para a prática do exercício físico.

Segundo o ACSM (2009) a triagem inicial dos participantes em actividades físicas organizadas, serve para:

  • Identificação e exclusão dos indivíduos com contra-indicações médicas em relação ao exercício físico.
  • Identificação dos indivíduos com sintomas de doença e factores de risco para o desenvolvimento de doenças e que devem receber avaliação médica antes de começarem um programa de exercício físico.
  • Identificação das pessoas com considerações clínicas de doença significativas as quais deveriam participar num programa supervisionado por um médico.
  • Identificação dos indivíduos com outras necessidades especiais.
  • Nem todos os ginásios estão organizados nesta área, nestes procedimentos e como não queremos que nos acusem de negligência deveremos como professores tomar medidas preventivas.

Factores de Risco de Doenças Coronárias

Normalmente, aumentar o nível de actividade física é uma situação segura para a maioria das pessoas, sobretudo se a actividade física é regular e orientada por alguém credenciado e com algum bom senso na sua actuação. No entanto, algumas pessoas deveriam aconselhar-se com o seu médico antes de aumentarem o seu nível de actividade física.

Existem várias contra-indicações médicas para a prática do exercício físico, portanto convém identificar os factores de risco. Algo que pode ajudar é um questionário administrado a todos os indivíduos com a finalidade de identificar indivíduos em risco elevado. Existe um questionário designado por Par-Q, um questionário muito simples criado no Canadá. Mesmo os questionários simples podem eficazmente identificar muitas pessoas com um elevado risco e podem aumentar a segurança do exercício físico sem supervisão.

Este tipo de questionários deve ser preferencialmente interpretado por um staff qualificado para o efeito (ACSM, 1998). Devido aos potenciais riscos assumidos pelos operadores de instalações de saúde/fitness, recomenda-se que todas as instalações que forneçam supervisão documentem os resultados da triagem (ACSM, 1998).

Devem ser efectuados todos os esforços para educar os potenciais novos sócios, acerca da importância de obterem um check-up médico e recomendada uma avaliação médica antes de iniciar a participação em actividades físicas.

Sem uma análise através de um questionário, é impossível determinar se uma pessoa está em risco para participar em determinado tipo de aula ou não.

Os questionários não retiram os riscos, mas condicionam o comportamento dos professores e funcionários para com o indivíduo que preenche o questionário, podendo fazer adaptações dos exercícios nas aulas.

Pessoas identificadas como de elevado risco, ou com doença cardiovascular diagnosticada e que se recusem a fazer uma avaliação por um profissional médico, e aqueles que não completem o questionário em certos países como os E.U. podem ser excluídos das actividades pois a lei assim o permite. Em Portugal a pouca legislação existente exigia até há pouco tempo um atestado médico.

Pessoas sem sintomas e sem historial de doença cardiovascular que não tenham obtido uma avaliação médica, quando completarem o questionário deverão assinar um termo de responsabilidade e assunção de risco. O problema está na validade legal dos documentos. No entanto, deveremos caminhar na vanguarda da indústria e apesar da legislação ser quase nula em Portugal, o mais natural é que a nível legal as coisas evoluam no sentido dos países mais desenvolvidos e portanto, no sentido daquilo que foi aqui referido como exemplo.

Os factores de risco:

  1. Idade. Homem>45 anos; mulher > 55 ou menopausa prematura sem terapia de reposição de estrogénios
  2. História familiar. Enfarte de miocárdio ou morte súbita antes dos 55 anos de idade no pai ou outro familiar de primeiro grau, ou antes dos 65 anos de idade na mãe ou noutra familiar de primeiro grau
  3. Ser fumador
  4. Hipertensão. Pressão Sanguínea >140/90 mm Hg, confirmada com medições em pelo menos 2 ocasiões separadas, ou em medicação antihipertensiva
  5. Hipercolesterolemia. Colesterol total > 200 mg/dL (5.2 mmol/L) (se não houver um perfil lipoproteíco disponível) ou HDL < 35 mg/dL (0.9 mmol/L)
  6. Diabetes mellitus. Pessoas com diabetes mellitus insulino-dependentes que sejam >30 anos, ou que tenham este problema à mais de 15 anos, e pessoas com diabetes mellitus não insulino-dependentes que sejam >35 anos de idade deverão ser classificados como possuidores desta doença.
  7. Estilo de vida sedentário/inactividade física. Pessoas pertencentes aos 25% da população menos activa, como definido pela combinação de empregos sedentários que implicam estar sentado a maior parte do tempo durante o dia e sem exercício regular ou actividades recreativas activas.

Factor de risco negativo. Critério de definição:

  1. HDL. > 60mg/dL (1.6 mmol/L)

Notas: (1) É habitual somar os factores de risco ao efectuar decisões clínicas. Se o HDL estão altas, deve-se subtrair um factor de risco da soma dos factores de risco positivos, como as HDL elevadas diminuem o risco de doença cardíaca; (2) A obesidade não está referida como um factor de risco positivo independente porque os seus efeitos são exercidos através de outros factores de risco (por ex: hipertensão, hiperlipidemia, diabetes). A obesidade deveria ser considerada como um alvo independente de intervenção.

Consoante os factores de risco, os alunos que iniciam a actividade física classificam-se em função dos riscos anteriormente descritos, em 3 grandes grupos: aparentemente saudáveis, risco aumentado e doença diagnosticada.

  1. Aparentemente Saudáveis: indivíduos que são assintomáticos e aparentemente saudáveis com não mais do que um factor de risco coronário
  2. Risco Aumentado: indivíduos que têm sinais e sintomas que sugerem uma possível doença cardiopulmonar ou metabólica e/ou dois ou mais factores de risco coronário
  3. Doença Diagnosticada: indivíduos com uma doença cardíaca ou pulmonar diagnosticada

Assim, com um simples questionário oral ou escrito, podemos estratificar o conjunto de alunos que nos chega aos ginásios e realizar uma triagem dos mesmos, orientando-os para as actividades mais adequadas, condicionando a realização de algumas aulas ou apenas de algumas actividades e colaborando na sua reabilitação.

Muito mais importante do que uma avaliação da condição física, o questionário cuidadoso, ajudará a elaborar melhores e mais eficazes programas de treino.

Bibliografia

ACSM (2009). ACSM’s Resource Manual for Guidelines for Exercise Testing and Prescription, 6th ed. Lippincott Williams & Wilkins

Canada’s Physical Activity Guide to Healthy Active Living, Health Canada (1998) http://www.hc-sc.gc.ca/hppb/paguide/pdf/guideEng.pdf

ACSM (1998). AHA/ACSM Joint Statement: Recommendations for Cardiovascular Screening, Staffing, and Emergency Policies at Health/Fitness Facilities [Online] http://www.acsm-msse.org/ [29 de Julho de 2002].

Barreiras para o exercício físico

As barreiras para o exercício físico são consideradas como um factor negativo determinante na participação em programas de exercício físico (Weinberg e Gould, 2006). No entanto, nem sempre as barreiras são reais, por vezes são apenas uma percepção errada da realidade. Vejamos o caso da falta de tempo, o factor mais citado como barreira para a manutenção da prática regular de actividade física (Brownson, Baker, Housemann, Brennan, e Bacak, 2001; Tahara, Schwartz, e Silva, 2003; Weinberg e Gould, 2006; Canadian Fitness and Lifestyle Research Institute, 1996). O tempo necessário para realizar actividade física de forma regular e obter alguns benefícios para a maioria dos indivíduos, resume-se a 30 minutos diários de actividade física moderada a intensa em 5 ou mais dias por semana (Blair, La Monte, e Nichaman, 2004). Se o indivíduo optar por um tipo de actividade mais vigorosa, podemos até reduzir esse tempo a 90 minutos semanais. Claro que, a isso teremos de adicionar o tempo de deslocação e preparação da actividade. Ou seja, não é propriamente “demasiado tempo”. Talvez seja mais uma questão de gestão do tempo, de disponibilidade de equipamento ou instalações, ou de conhecimentos sobre actividade física.

As pessoas que vivem em áreas onde existem mais infra-estruturas para a prática de actividade física têm maior probabilidade de realizar actividade física moderada ou intensa em comparação com pessoas que residem em áreas onde há menos infra-estruturas (Addy, Wilson, Kirtland, Ainsworth, Sharpe, e Kimsey, 2004; Bourdeaudhuij, Sallis, e Saelens, 2003; Sallis, et al., 1990; Sharpe, Granner, Hutto, e Ainsworth, 2004) Tappe, Duda e Ehrnwald (1989), identificaram diferenças nas barreiras que impedem os estudantes do ensino secundário de se exercitarem. As barreiras fundamentais eram os constrangimentos de tempo, condições climatéricas inadequadas, escola e trabalho de escola e a falta de interesse ou falta de desejo. As barreiras mais importantes para a actividade física recolhidas num estudo realizado pelo Canadian Fitness and Lifestyle Research Institute, (1996), eram do tipo pessoal: falta de tempo (69%), falta de energia (59%) e falta de motivação (52%). Menos peso parecem ter as de índole social: ausência de um parceiro de treino (21%), programas insuficientes (19%) e ausência de apoio (18%) (ver Tabela 1). Estes resultados confirmam-se por outros autores como Brownson, Baker, Housemann, Brennan, e Bacak (2001), que mencionam a falta de tempo, sentir-se cansado, ter suficiente exercício no emprego e a falta de motivação para fazer exercício.

Tabela 1

Barreiras Para a Actividade Física

Barreira Percentagem (%) Tipo
Grandes barreiras
Falta de tempo 69 Pessoal
Falta de energia 59 Pessoal
Falta de motivação 52 Pessoal
Barreiras moderadas
Custo excessivo 37 Pessoal
Doença/lesão 36 Pessoal
Ausências de instalações próximas 30 Ambiental
Sentir-se desconfortável 29 Pessoal
Ausência de habilidade 29 Pessoal
Medo de lesão 26 Pessoal
Barreiras menores
Ausências de locais seguros 24 Ambiental
Ausência de cuidados para crianças 23 Ambiental
Ausência de um parceiro 21 Ambiental
Programas insuficientes 19 Ambiental
Ausência de apoio 18 Ambiental
Ausência de transporte 17 Ambiental

Referências Bibliográficas

Addy, C.L., Wilson, D.K., Kirtland, K.A., Ainsworth, B.E., Sharpe, P., e Kimsey, D. (2004). Associations of perceived social and physical environmental supports with physical activity and walking behavior. American Journal of Public Health, 94, 440-443.

Blair, S., La Monte, M., e Nichaman, M. (2004). The evolution of physical activity recommendations: how much is. American Journal of Clinical Nutrition, 79, 913S-920S.

Bourdeaudhuij, I.D., Sallis, J.F., e Saelens, B. (2003). Environmental Correlates of Physical Activity in a Sample of Belgian Adults. American Journal of Health Promotion, 18, 83-92.

Brownson, R., Baker, E., Housemann, R., Brennan, L., e Bacak, S. (2001). Environmental and policy determinants of physical activity in the United States. American Journal of Public Health, 91, 1995-2003.

Canadian Fitness and Lifestyle Research Institute. (1996). Barriers to physical activity. Progress in prevention, Bulletin no. 2. Restaurado Julho 5, 2007, de http://www.cflri.ca/pdf/e/pip04.pdf.

Sallis, J., Hovell, M., Hofstetter, C., Elder, J., Hackley, M., Caspersen, C., et al. (1990). Distance between homes and exercise facilities related to frequency of exercise among San Diego residents. Public Health Reports, 105, 179-185.

Sharpe, P., Granner, M., Hutto, B., e Ainsworth, B. (2004). Association of environmental factors to meeting physical activity recommendations in two South Carolina counties. American Journal of Health Promotion, 18, 251-257.

Tahara, A., Schwartz, G., e Silva, K. (2003). Aderência e manutenção da prática de exercícios em academias. R. bras. Ci e Mov., 11, 7-12.

Tappe, M., Duda, J., y Ehmwald, P. (1989). Perceived barriers to exercise among adolescents. Journal of School Health, 3(4), 135-155.

Expectativas e exercício

Abril 2, 2010 Paulo Sena 1 comentário

O Marketing dos ginásios nem sempre é o mais adequado para atrair os clientes que necessitam dos programas de exercício físico, criando por vezes barreiras intimidatórias. Nesta linha, Brooks (1994) efectuou um estudo para averiguar as atitudes em relação ao exercício físico e à indústria do fitness (ver Tabela 1). A visão dos indivíduos sedentários sobre os ginásios não foi a mais agradável. Salienta-se aquilo que essas pessoas gostariam de ver nos centros de fitness: pessoas com vários níveis de condição física, pessoas de várias idades, equipamento de fácil utilização, limpeza e arrumação, profissionais de várias idades que ajudassem os iniciados, receptividade a todas as idades e níveis de condição física, atenção individual para desenvolver e monitorizar o progresso, aulas e treinos orientados para uma variedade de níveis de condição física, mais situações do tipo: “experimente antes de usar” (adesões de sócio à experiência), passes de visita a preços razoáveis, tácticas de vendas sem grande pressão e relativamente à publicidade, gostariam de ver exemplos com pessoas comuns e apresentação de resultados realistas.

Tabela 1.

A Visão dos Adultos Sedentários Sobre as Instalações de Saúde e Fitness

Impressões Desejos
Clientela
As pessoas que frequentavam os clubes eram muito diferentes delas.Os membros dos clubes eram descritos como: jovens, em forma e antipáticos.

Os homens comiam as mulheres com os olhos e evidenciavam a sua vaidade.

As mulheres cuidavam da forma como se vestiam e cuidavam da sua maquilhagem antes de treinarem.

Ampla variedade de níveis de condição física.Padrões simpáticos e aceitáveis.

Ampla variedade de idades.

Instalações
Gostavam da ampla variedade de equipamentos e das instalações.Tinham a impressão que os funcionários não tinham qualificações.

A limpeza e organização eram importantes.

Uma ampla variedade de actividades e equipamento.Equipamento de fácil utilização.

Limpeza e arrumação.

Pessoal
Preocupação com as qualificações do pessoal.Impressão de que o pessoal não tinha qualificações.

Alguns elementos do staff demonstravam indiferença para com aqueles que não estavam em forma.

Profissionais qualificados e com competências.Ajudem e aceitem os iniciados.

Faixas etárias de acordo com os clientes.

Treino e instrução.

Ambiente
O ambiente na maioria das instalações era demasiado social.Alguns nomes de instalações davam uma impressão de intimidação e pouca receptividade. Um ambiente não social.Receptividade a todas as idades e níveis de condição física.
Programas
Muitos tiveram uma experiência positiva com as aulas de aeróbica.Por vezes o ritmo da aula era demasiado rápido e a sua falta de condição física tornava-se embaraçosa.

Instrutores, positivos e atenciosos eram um componente crítico.

Atenção individual para desenvolver e monitorizar o progresso.Aulas e treinos orientados para uma variedade de níveis de condição física.
Custos
Comentários negativos no que diz respeito à forma agressiva de vender os cartões de sócio.Alguns sentiram que estavam a ser utilizadas práticas de negócio pouco éticas.

Referir um preço especial por um dia era desfavorável.

Mais situações do tipo: “experimente antes de usar” (adesões de sócio à experiência).Passes de visita a preços razoáveis.

Tácticas de vendas sem grande pressão.

Publicidade
Os modelos nos anúncios eram muito magros e pareciam pouco saudáveis.Os modelos não os inspiravam porque eram demasiado irrealistas. Apresentar pessoas reais (comuns).Apresentar resultados realistas.

Nota. Adaptado de: How consumers view health and sports clubs, por Brooks, C., 1994, Ann Arbor: International Health, Racquet and Sportsclub Association.

Outra orientação curiosa que reforça o trabalho anterior, é relatada por Lindgren e Fridlund (2000), que referem as percepções de um grupo de mulheres sedentárias, que expressaram a opinião que, muitos health clubs tinham una cultura excessivamente centrada em pessoas bem treinadas, na beleza física e em corpos magros, algo distinto de quem é fisicamente inactivo. A percepção, as expectativas, levam-nos a outro problema comum com os sócios dos ginásios, o excesso de confiança sobre a eficiência futura ou sobre o controlo futuro, que faz com que as pessoas paguem e não utilizem o ginásio. DellaVigna e Malmendier (2006) abordaram esse problema e num dos seus estudos, referem que, os consumidores que escolheram um contrato mensal tinham 18% mais de probabilidades de se manter como sócios durante um ano do que os sócios que se comprometeram anualmente. Os alunos esperam coisas fáceis em termos de esforço físico e resultados visíveis rapidamente. São precisamente essas expectativas demasiado optimistas dos praticantes inexperientes que podem levar ao descontentamento e desistência (Jones, Harris, Waller, e Coggins, 2005).

Em tom de brincadeira, aqui fica um anúncio televisivo de um ginásio Alemão. Cria expectativas? Cria uma imagem do tipo de pessoas que frequenta os ginásios? Poderá contribuir para criar barreiras?

Referências Bibliográficas

Brooks, C. (1994). How consumers view health and sports clubs. Ann Arbor: International Health, Racquet and Sportsclub Association.

Lindgren, E., e Fridlund, B. (2000). Motives for participation in sport and exercise among youg women. Sport Psychology Conference in the New Millennium.

DellaVigna, S., e Malmendier, U. (2006). Paying not to go to the gym. The American Economic Review, 96, 694-719.

Jones, F., Harris, P., Waller, H., e Coggins, A. (2005). Adherence to an exercise prescription scheme: The role of expectations, self-efficacy, stage of change and psychological well-being. British Journal of Health Psychology, 10, 359- 378.

O Ciclo Positivo e Negativo do Exercício

O cansaço ao final do dia é referido como uma das barreiras para não fazer exercício (Weinberg e Gould, 2006). Seja uma percepção errada da realidade ou um impedimento efectivo, origina a entrada num ciclo negativo. Quando se entra num desses ciclos negativos: o indivíduo está cansado, por isso não treina, consequentemente, atrofia e fica menos funcional por ausência de estímulo – torna-se ao longo dos tempos, um indivíduo que se cansa cada vez mais facilmente. E o ciclo repete-se. Os meses passam e a situação vai-se agravando. Para o inverter é necessária uma força de vontade intensa, um estado emocional diferente para vencer a inércia inicial, ou seja, passar de um ciclo negativo a um ciclo positivo: o indivíduo sente-se com energia – treina – volta a treinar e/ou tem tendência para ser mais activo – fica mais funcional e mais capaz. O ciclo repete-se, até porque, um indivíduo que aumenta a sua capacidade física, efectua as suas actividades diárias com uma percentagem mais reduzida das suas capacidades globais, ficando assim com uma reserva energética superior àquela que tinha quando não treinava, quando era menos funcional.