Crosstraining e os Promofitgames

A segunda edição dos Promofitgames chegou ao fim. Muitos participantes, alguns recorrentes que demonstraram melhoria técnica e de performance também. Outros iniciaram a descoberta das competições de condição física, revelando-se atletas de grande potencial. Vimos muita gente ansiosa quando se depararam com o primeiro desafio, sinal que os desafios nos permitem ter objetivos específicos de treino e que são isso mesmo: desafios. As tabelas classificativas dão-nos feedback sobre a nossa condição face a outros competidores, mas o mais importante é que nos tornam mais regulares e dedicados no treino, no sono e na alimentação. Descobrimos pontos fortes que desconhecíamos e mostramos debilidades que não pensávamos serem importantes: para alguns é um movimento como o agachamento, para outros é a cadência descontrolada que se imprime num desafio longo e para todos é o diálogo interno que nos separa do nível seguinte de funcionalidade.

A competição subiu de nível. Quer em termos de condição física quer em termos de técnica.

Já havíamos comentado pessoalmente com a organização e com alguns atletas esse facto. Porque ao ver os participantes da primeira edição, verificamos que muitos deles tinham excelente condição física mas eram tecnicamente debilitados. Gastavam demasiada energia com movimentos simples e gestos acessórios desnecessários. Muitos deles desapareceram das finais porque acreditavam que o crosstraining era apenas uma questão de condição física. Outros aprimoraram a técnica e por isso apareceram mais eficientes do ponto de vista energético. Aqui a humildade, a vontade de aprender e sobretudo a paixão pela atividade marcaram diferença.

Os desafios são de condição física, mas a técnica de execução eficaz dos movimentos pode dar-nos 20 ou 30% de eficiência, a estratégia de prova de acordo com o conhecimento prévio que temos de desafios idênticos que realizamos nos treinos, ajuda em mais 10%. Depois temos as capacidades motoras diversas que foram treinadas com intensidade, sempre no limiar anaeróbio. E, por muito que se negue e se procure esquecer, temos uma competência treinável, de primordial importância que é a capacidade mental para vencer os desafios: estabelecer objetivos e metas intermédias de forma adequada, o diálogo interno que mais parece uma guerra entre o eu e o eu (ai se por vezes conseguíssemos desligar a razão e deixar o inconsciente aos comandos…), o controlo da ansiedade e das distrações, a relação com a vitória e o insucesso e a nossa capacidade para nos centrarmos no momento presente e conseguirmos visualizar claramente a 3D o futuro próximo de forma positiva, gerando o estado emocional ótimo para o melhor desempenho (nem demasiado excitado para nos retirar precisão no movimento, nem demasiado passivo que nos retire dinâmica).

A maioria dos atletas, treina-se a si próprio. Os jogos ajudam a alterar os treinos e mostram aos atletas a necessidade de terem um treinador, um amigo ou vários especialistas de cada área que os ajudem a melhorar. Sim, porque neste tipo de jogos, ao contrário de provas de atletismo, de ciclismo, de desportos coletivos diversos, os participantes não sabem que tipo de prova terão de realizar. O fator aleatório pesa bastante e… Como os componentes motores são tão diversos, dificilmente um atleta dominará halterofilismo, corrida, remo, ginástica com precisão. E agora me recordo que até agora não houve nenhum desafio com água. E se houvesse? Será que os participantes seriam os mesmos? Será que influenciaria muito os resultados? E adicionando umas elevações? Ou seja, os próximos jogos prometem crescer e variar ainda mais. Desta vez havia remos, caixas, espaço amplo, bancada, mais público e muito mais ruído ambiente. Como interpretam os atletas esse ambiente?

Nos ginásios, nas empresas, as pessoas procuram um coach por falta de disciplina, de método e de auto-controlo. Os jogos ajudam a alterar treinos, ajudam no aumento da frequência de treinos que por vezes nem sempre é benéfica para alguns atletas que treinam em demasia. Por isso no crosstraining se começam a verificar os mesmos problemas de outras atividades: atletas a copiar os treinos dos seus ídolos profissionais que vivem, comem, dormem de forma completamente diferente do comum dos mortais. É verdade que a PNL nos ensinou a modelar os casos de sucesso. Então porque em vez de simplesmente copiarem as rotinas de treino dos heróis, alguns atletas destes promofitgames não copiam a técnica de treino (não de competição onde os atletas já estão cansados)? É necessária uma adaptação à realidade de cada atleta, são necessários vários olhos treinados para corrigirem técnicas, comportamentos que levem os participantes aos seus limites (que em alguns casos estão longe de o serem). Quando não há treinadores por perto, as filmagens permitem uma avaliação da nossa própria performance que depois comparamos com modelos tecnicamente considerados mais eficientes. Os jogos permitirão a muitos atletas uma análise das suas técnicas de execução e dos seus comportamentos em competição.

Depois dos apuramentos vieram as finais onde estavam as “máquinas” humanas no seu melhor desempenho. E, como em todos os desportos, a competição implica alguma estratégia de prova, implica uma pressão, implica uma postura perante o público, perante os outros competidores (uns isolados, outros em grupo, uns humildes, outros arrogantes). O apoio, o ambiente foi quente.

As decisões arbitrais tipicamente contestadas pelo Tuga que se preza com a célebre frase: a culpa é do árbitro. E embora em alguns casos até possa ter algo de verdade, a forma como encaramos o facto, faz toda a diferença. Se antes se reclamava por falta de bumper plates ou temperatura demasiado alta, agora era por haver demasiado espaço, muito peso ou falta de elevações nos desafios. Enfim, sinal de competição, sinal de desporto e sinal de Portugal 🙂

Mas há algo que gostaria de assinalar porque é muito importante: continuou a haver alguma cooperação entre atletas que competem entre si. Aliás, neste tipo de competições, o ato de competir é uma das formas de progresso, mas a partilha de informação, a partilha de experiências entre participantes é fundamental para o crescimento dos atletas e das próprias provas.

Desta vez verificamos que alguns atletas que na anterior edição ficaram em casa a colocar defeitos à competição, participaram agora com afinco. Talvez conscientes das dificuldades que o Sérgio Rodrigues teve para organizar um evento deste género ao nível logístico sem grandes recursos e com verdadeira atitude de empresário, de produtor apaixonado e que acredita sempre.

A competição permite aos ambiciosos atletas melhorarem a sua performance e crescerem como competidores. Quando somos o melhor do nosso ginásio ou do nosso bairro, somos idolatrados pelos amigos lá do sítio e sabe bem ao ego, mas se não competirmos com os melhores da cidade, nunca podemos melhorar. E se formos o melhor da cidade e não competirmos com os melhores do País, dificilmente iremos evoluir para um nível mais alto porque as nossas competências são suficientes para vencer o nosso nível. E falo de competências físicas, mentais e sociais. É doloroso passar de herói do ginásio a ser mais um na multidão, a andar nos últimos do pelotão. Mas só assim é possível crescer do ponto de vista físico, mas sobretudo do ponto de vista mental.

O público cria ambiente, apoia, grita, mas achei estranho que alguns colegas e treinadores não tenham percebido que os níveis de ativação ideias, são diferentes de atleta para atleta. Por vezes não necessitamos de subir demasiado a adrenalina. Por vezes os atletas necessitam de um apelo aos objetivos de tarefa em vez de objetivos de resultado. Frases como: – Ombros para à frente! Em vez de: – Vai vai vai!!!!… Alguns acidentes seriam evitados certamente.

O crosstraining, é uma metodologia de treino que é eficaz porque respeita os princípios do treino. O crossfit não inventou a roda. O Sr. Glassman foi buscar as melhores ferramentas de treino em diversas áreas e combinou-as com base em Leis Naturais como são os princípios do treino. Daí advêm os bons resultados da metodologia. Resulta porque se baseia na intensidade, porque utiliza movimentos de grande amplitude, que tiram as pessoas da zona de conforto, resulta porque tem desafios físicos variados em termos de ferramentas e combinações, resulta porque formou uma tribo (leiam Tribos de Seth Godin), porque tem uma cultura própria e porque foi buscar o que melhor tem resultado ao longo dos últimos 100 anos de atividade física organizada. O princípio de sobrecarga é uma lei natural como a lei da gravidade, logo, atua sobre nós. Quer queiramos quer não.

As ferramentas extraordinárias que fazem parte deste método, chamam-se halterofilismo, powerlifting, ginástica, e atividades de endurance como nadar, correr e remar. Portanto, se querem melhorar, devem procurar a melhor informação, os melhores treinadores dessas atividades e os melhores psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas para depois integrarem a informação obtida e produzirem um método adaptado às vossas necessidades e objetivos.

A cultura das atividades que fazem parte destas competições também revela a paixão dos atletas.

As argolas existem há dois mil anos e o treino mais próximo daquilo que conhecemos hoje, começou há mais de um século. Os ginásios tiveram origem como locais do culto do corpo e da mente na Grécia antiga. Talvez porque mente e corpo não se dissociam. E talvez não seja estranho o facto da Grécia ter uma forte tradição no halterofilismo. O remo já se pratica há mais de 100 anos e correr é um ato natural que pessoas como Dean Karnaze ou os índios Tarahumara transformam num gesto que parece poder ser repetido indefinidamente. A natação e suas técnicas de nado foram evoluindo nos últimos dois ou três séculos. Há pessoas a nadarem distancias incríveis como Martin Strel que nos pode ensinar algo após ter sido capaz de nadar 500km rio abaixo sem parar. Os suplementos alimentares não são a resposta contra as drogas. Se ao menos soubéssemos algo mais sobre Korn Flakes, Joseph Kellogs e Battlecreek.

Por tudo isto, verificamos facilmente que as técnicas usadas em competição de crossfit, são adaptadas de acordo com as regras dos desafios, mas é inegável que os atletas de top são tecnicamente muito bons e treinam com mestres de halterofilismo e de ginástica entre outras especialidades. Bebem da fonte. Verificamos também que houve grande evolução técnica dos crossfitgames 2009 para os 2012 porque os atletas patrocinados têm treinado com os melhores treinadores olímpicos e fazem uma preparação mais completa e cuidada: tornaram-se profissionais.

Fico triste quando certos participantes dos Promofitgames se acham conhecedores de todo o tipo de treino, de preparação e chamam snatch a colocar a barra acima da cabeça de uma forma completamente diferente do que vemos nos Jogos Olímpicos, ou participantes que remam com frequências acima de 40 por minuto e um deslocamento muito pobre. Mas que ninguém os corrija! É por isso que simplesmente gritar, animar e dar palmadinhas nas costas, não é suficiente para se treinar um atleta. A tarefa de treinar uma pessoa, é por si só um enorme desafio.

Bem, espero que agora os valorosos atletas que estiveram nas finais dos Promofitgames partilhem tudo o que aprenderam e ajudem a melhorar a organização do Sérgio e da Promofitness, a quem podemos agradecer a oportunidade de mais um incentivo que permitiu a todos crescermos como desportistas e como pessoas. Mesmo aqueles que, como eu, apenas realizaram os desafios da primeira fase.

Bons treinos!

Links de referência

Nacionais

  • Eduardo Fonseca – especialista em Kettlebells
  • Sandro Eusébio – powerlifting
  • Sérgio Rodrigues – crossfit

Internacionais

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Treinem com os melhores e recordem que são coisas simples muito bem feitas que vos irão levar ao êxito.

A repetição por repetição não é suficiente para produzir bons resultados a longo prazo. Por isso procurem repetições de qualidade em amplitude total de movimento e conjuguem com várias formas de aumentar a intensidade de treino: aumento do peso, redução de descansos, tipo de movimentos com maior dinâmica, etc.

Bons treinos!