Dores musculares tardias

A relação entre o exercício físico, dano muscular e os mecanismos fisiológicos responsáveis pela etiologia da DMIT ainda não são completamente conhecidos (Foschini , Prestes, e Charro, 2007).

Dores musculares, dor miofascial, mialgia… São termos utilizados para as dores musculares. Não podemos viver sem músculos. Eles servem para todos os movimentos internos e externos do nosso corpo. Puxam, empurram, mantêm-nos de pé. Eles são… O motor do nosso corpo! Até o coração é um músculo! Temos mais de 600, grandes e pequenos.

O maior músculo do corpo humano é o Grande Glúteo (situado no traseiro), muito “abandonado” pela maioria das pessoas. Por isso dá tanta preocupação às mulheres. O que elas não sabem é que, por ser tão grande, é também muito forte e suporta cargas elevadas. Portanto, se quiserem que ele reaja, terão de o submeter a um estímulo adequado, suficientemente forte para se transformar. Isso pode ser realizado com movimentos simples como grandes flexões de pernas, as quais, por vezes, podem como qualquer outro exercício provocar dores musculares.

Embora as teorias abundem, não sabemos fisiologicamente porque ocorrem essas dores musculares tardias, mas sabemos que ocorrem:

  • Quando fazemos movimentos aos quais não estamos habituados. Mesmo alguém que treine com muita regularidade pode ter dores musculares no dia seguinte a ter efectuado exercícios diferentes dos habituais. Por exemplo: um nadador de alta competição que efectue um treino de hóquei em campo, terá dores musculares no dia seguinte. E certamente serão dores musculares severas.
  • Quando realizamos muitas contracções excêntricas, ou seja, quando os nossos músculos se contraem e as suas extremidades se afastam. Quando se realizam movimentos de travagem mais intensos, produzem-se habitualmente mais dores musculares nos dias seguintes às actividades.
  • Quando a carga é demasiado intensa em relação àquilo a que o corpo está habituado.
  • Quando a regularidade no exercício faz com que os períodos de aplicação da carga sejam demasiado espaçados. Ou seja, quando se treina… De vez em quando.
  • Quando voltamos de férias e regressamos ao nosso programa de actividade física…

No treino personalizado o professor ou treinador tem um conhecimento profundo do aluno, no caso das aulas de grupo isso já não ocorre. As cargas são assim estabelecidas para a média dos alunos. Aliás, as estatísticas, as médias, as probabilidades operam uma importância imensa na nossa sociedade (talvez superior à da matemática que nós conhecemos). Embora se procure adaptar as doses dentro do possível, sempre nos deparamos com pessoas que se afastam da norma, quer pela sua aptidão física, quer pela sua regularidade nas aulas, quer pelo seu empenho variável (ora de forma intensa, ora de forma aligeirada) que se traduz numa intensidade variável de estímulos.

Qualquer indivíduo que tenha alguma experiência com actividade física já passou pela sensação de ter dores musculares tardias. Isso ocorre quer nas actividades orientadas como podem ser os treinos desportivos, aulas de educação física ou actividades de ginásio. Mas também ocorre, com a chamada actividade física de tipo ocupacional, que deriva da realização do trabalho ou dos papéis sociais.

Com o passar dos anos, a aptidão física das crianças e jovens em geral, tem vindo a diminuir. Os jovens estão cada vez mais obesos e sedentários. Daí que os professores de educação física, se vêem obrigados a reduzir as cargas, as doses habituais de outrora (5 ou 10 anos atrás) para os seus alunos. Ou seja, cada vez exigimos menos, chegando ao ridículo de solicitar a alunos do Ensino Secundário tarefas como a realização de 3 flexões de braços, com a consciência que esse é um desafio de 70% do máximo de muitos indivíduos.

O desafio que se depara aos profissionais do movimento, é o de conseguir equilibrar o Princípio da Individualidade Biológica, com o Princípio base do exercício físico denominado: Princípio de Sobrecarga.

A tolerância ao esforço dos indivíduos varia imenso, devido aos hábitos de conforto que possuem, portanto é comum, os jovens incomodarem-se com solicitações mínimas que nem se podem considerar estímulo físico pelo facto de nem sequer os fazerem entrar na chamada Zona Alvo de Treino. A questão está em saber quais as verdadeiras reclamações dos alunos e aquelas que simplesmente são um reflexo da inactividade habitual desses jovens.

O treino é um estímulo. O nosso corpo tem de fazer algo ao qual não está habituado para ser obrigado a transformar-se, a modificar-se, tornando-se mais forte, mais resistente, mais flexível, de forma que tenhamos um maior potencial para realizar outras tarefas.

O exercício pode ser visto como um medicamento sem efeitos secundários. Mas as doses devem ser adequadas. Nem demasiado fracas, nem demasiado fortes. Mas as dores musculares ligeiras nas horas seguintes a uma actividade intensa, são normais e dão-nos aquela sensação agradável de ter treinado. Claro que, quando são violentas após um treino e se mantêm com a mesma intensidade nos treinos subsequentes, é porque algo está errado na dose de exercício ou na frequência do mesmo.

Sabemos que as dores musculares costumam aumentar de intensidade até ao 2º ou 3º dia após a actividade, mas depois desaparecem de repente e, embora se especule muito com alongamentos, ingestão de café ou outras acções, não existe uma acção comprovada que evite a intensidade das dores musculares. No entanto, ao conhecermos os motivos pelos quais elas ocorrem, podemos: dosear as cargas de forma progressiva, ser regulares na prática dos exercícios, não alterar movimentos e actividades de forma muito frequente. E… Pensar que as dores têm de ocorrer de vez em quando e podem ser sinal que nos empenhamos no treino. Desde que não sejam incapacitantes, diz-nos a experiência com jovens, adultos e idosos, que… São sinal de vida, de reacção do corpo a um estímulo. Se pensarmos que os níveis de condição física da população estão tão baixos e que o sedentarismo é a causa de mortalidade número um no mundo, vamos agradecer umas dorzitas saborosas de vez em quando.

Referências Bibliográficas

Foschini , D., Prestes, J. e Charro, M.A. (2007). Relação entre exercício físico, dano muscular e dor. Rev. Bras.Cineantropom. Desempenho Hum. 9(1): 101-106.

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