A musculação não foi inventada agora

As referências da história ajudam-nos a compreender algumas coisas do presente. Por isso, sem querer ser saudosista nem exaustivo, vou mencionar alguns factos, algumas estórias que julgo serem importantes para compreendermos melhor porque é que em 2006 há muitas marcas de equipamentos desportivos e suplementos alimentares, porque é que existem tantos profissionais a venderem produtos e serviços nos ginásios e porque é que surgiram tantos inventores das mais variadas metodologias de treino, de organização de aulas de grupo e outras coisas tais.

Aquilo que nos parece inovador na actualidade, é na maioria das vezes a revitalização de um método ou produto antigo. Uma nova imagem juntamente com modernas técnicas de marketing que nos tentam transmitir a imagem de inovação e criação modernas.

Os feitos de força sempre foram apreciados na nossa civilização. Nem me preocuparia em falar-vos da Antiga Grécia se não fosse atribuído a Milo de Creta (558AC) o registo de ter reconhecido o Princípio da Sobrecarga. Para desenvolver o seu corpo, carregava um jovem touro, um pequeno animal às suas costas para se exercitar. Consoante o animal ia crescendo, também o seu corpo se ía desenvolvendo por resposta ao estímulo progressivamente mais exigente.

4 Séculos A.C. Uma ilustração de um mosaico da Piazza Armerina, apresenta mulheres vestidas numa espécie de bikini, exercitando-se com halteres.

Segundo séc. A.C., o médico Galen, publica na Grécia os seus pensamentos sobre os benefícios terapêuticos do exercício no De Sanitate Tuenda. Nesta publicação ele discutia entre outras coisas a utilização dos halteres e de uma variedade de exercícios de saltos. Serviu de base para outros textos de vários autores até ao séc. XIX.

1544, o educador alemão Joachim Camerarius publica Dialogues des Gymnastica, contendo referencias ao treino com pesos.

18??, Gustav Zander criou uma linha de máquinas de musculação, recomendando um método similar ao de Kellogs (ou Kellogs tinha um método similar ao de Zander?).

1847, Hippolyte Triat, um antigo homem forte dos espectáculos de vaudeville, abriu um ginásio em Paris, como resposta ao crescente interesse pelo exercício físico. Este Ginásio Triat é significativo pois figura como um dos primeiros ginásios a cobrar dinheiro para admitir sócios, tinha quotas diferentes para homens, mulheres e crianças: de 31 francos por.

1841, Sir George Williams criava a YMCA em Londres numa tentativa de substituir a vida das ruas pelo “estudo da Bíblia e a oração”. Esta organização difundiu-se nos EUA como a percursora dos ginásios que conhecemos na actualidade. Todavia funciona como forte organização comunitária, tendo os ginásios como forte pólo dinamizador.

Eugene Sandow era um artista que realizava demonstrações de força por toda a América, acabando por abrir vários clubes destinados à actividade física depois de se ter retirado dos palcos.

O Professor Louis Attila também era um famoso artista e empresário, tinha um ginásio em Nova Iorque que se tornou num local utilizado por grandes levantadores de peso e pessoas famosas da época.

Madame Brennar, que dirigia um ginásio em Londres onde as mulheres utilizavam calças nas suas sessões de treino, utilizava barras com bolas e halteres nas suas sessões de treino. Escreveu um livro: Madame Brennar’s Gymnastics for Ladies, A Treatise on the Science and Art of Calisthenics and GymnasticExercises.

Ou seja, no século XIX, havia aulas de grupo com barras e halteres e já havia ginásios.

As primeiras referências às barras, são de 1860.

1864, John Blundell’s publica The Muscles and Their Story.

1866, abria o Battle Creek Sanitarium inicialmente chamado de Western Health Reform Institute, baseado nos princípios de saúde advogados pela igreja adventista do sétimo dia. Em 1876, o Dr. John Harvey Kellogg tornou-se o superintendente, construindo uma instalação renovada em 1878. Nesta enorme estrutura, as pessoas exercitavam-se e perdiam peso à custa de utilizar clisteres, comer o suplemento alimentar da época: corn flakes, e exercício realizado com máquinas ou em aulas de grupo. Era ainda utilizada terapia de pequenos choques eléctricos para estimular o corpo. Esta impressionante estrutura poderia ser chamada hoje de SPA. Em 1994 foi realizado o filme The Road to Wellville, que retrata as práticas de Kellogg no Sanatorium.

1895 John Harvey Kellogg, o médico que criou os Cornflakes, escreveu um documento intitulado “A Arte da Massagem”. Este documento sugeria um tipo de musculação de execução lenta (oito segundos a levantar o peso), mas também recomendava uma boa técnica de execução sem bloqueios de respiração, etc. Também referia que o objectivo da recreação não era fortalecer os músculos, mas sim regular a circulação.

1898, surge a Sandow Magazine.

No final do séc. XIX, pode dizer que surgem movimentos próximos do actual culturismo. Louis Attila, Eugene Sandow e Charles Samson, participavam em exibições de poses.

No séc XX, as barras de carregar discos, rapidamente ultrapassaram em popularidade as kettlebells, as Indian club, juntando-se aos halteres como uma das ferramentas preferidas de quem se exercitava com pesos. E apesar da criação de máquinas sofisticadas nos últimos anos, continua a ser dos instrumentos mais vendidos.

As barras de carregar discos, da forma como nós as conhecemos, surgiram na segunda metade do século 19, mas anteriormente existiam as barras e halteres de bolas.

1901, Theodore Siebert da Alemanha, começou a comercializar a sua barra universal de carregar discos (Siebert’s Universal-Scheibenstange).

1902 era criada a Milo Barbell Company.

1904, Ms. Beatrice Marshall e Al Treolar realizam uma rotina de poses como vencedores do concurso “The Worlds Most Perfectly Developed Man and Woman”

Joseph Hubertus Pilates, criava nos anos 20 um método de exercício e máquinas, que foram revitalizados na actualidade: Pilates.

Anos 20, Os espectáculos de vaudeville onde actuavam os homens fortes, foi sendo alterado com inclusão de acrobatas e figuras humanas. Muitos acrobatas e ginastas praticavam os seus movimentos em Santa Mónica, California e no final dos anos 30 esse local ficou conhecido como Muscle Beach.

No início do século 20 surge o expansor do peito.

1928, Kaspar Berg introduziu a primeira barra olímpica. Utilizadas pela primeira vez nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, foram então copiadas pela Tork Barbell Company e pela Jackson Barbell Company e vários outros fabricantes.

Josef Weider aparece nos anos 30, criou a sua primeira revista e vendia halteres por correspondência.

193?, Charles Atlas populariza métodos isómetricos.

Um dos grandes proponentes modernos da saúde da mulher foi Jack LaLanne, que conquistou a televisão com o seu programa Jack LaLanne show de 1956-1970 (um dos programas de exercício físico com mais sucesso de sempre na TV). Abriu o seu ginásio em 1936 e por volta de 1982 tinha cerca de 200 nos EUA.

Se LaLanne conquistara a tv, Jane Fonda, a criadora da aeróbica, conquistava o vídeo.

Nos anos 60 as máquinas vibratórias eram muito populares.

Anos 60, Arthur Jones introduziu equipamentos de musculação altamente especializados, bem como um método de exercitação inovador, que viria a revolucionar o fitness. Criou a Nautilus.

Nos anos 80 o culturismo torna-se muito popular com o filme protagonizado por Arnold Schwarzenegger, intitulado: Pumping Iron.

O treino com pesos já vem da antiguidade, os seus benefícios foram popularizados por médicos, artistas de circo e professores. Algumas destas pessoas tentaram ganhar dinheiro com isso e outros até incorreram em charlatanices, chegando ao ponto de venderem produtos, instrumentos que nem eles próprios utilizavam para melhorar o seu corpo. Eugene Sandow e Charles Atlas foram disso exemplo.

O aparecimento de certos meios de comunicação: primeiro os livros, depois as revistas, a televisão em directo, o vídeo, e agora a Internet, permitiram a difusão de práticas e conhecimentos que nos séculos anteriores faziam parte de um círculo restrito de pessoas. No entanto, também trouxeram a necessidade de filtrar a informação para que seja facilmente aplicada por pessoas comuns sem grandes conhecimentos de biologia e anatomia.

Continuamos a utilizar ferramentas muito antigas que continuam a dar bons resultados e as inovações significativas têm sido poucas em termos de funcionalidade. Ocorrem ao nível do design estético e desenvolvem-se na actualidade meios tecnológicos que ajudam na dissociação cognitiva de quem pratica actividade física dentro do ginásio.

Molas, sapatos de ferro, barras de torção, e outros instrumentos, surgiram há largos anos atrás, mas continuam a ser vendidos tal qual existiram pela primeira vez, ou então, sofreriam um novo design que lhes permite voltar a ganhar popularidade.

Actualmente, os Indian Clubs (massas indianas) e as kettlebell estão a ser revitalizadas apesar de serem ferramentas com mais de um século.

Clubes e SPAs que sempre existiram nas mais variadas formas e dimensões, incluindo actividades que continuam a fazer parte dos ginásios actuais: personal training, musculação, aulas de grupo com ou sem aparelhos, Pilates ou Feldenkrais, são apenas alguns exemplos.

Até os suplementos alimentares já vêm de longa data e para recordar, hoje em dia, alguns são simples alimentos de supermercado como os Corn Flakes ou as bolachas com l-carnitina.

Até os reis Eduardo VII e George V de Inglaterra já tinham o seu personal trainer.

Alguns dos princípios em que no baseamos na actualidade foram formulados por pessoas como Hipócrates que dizia: aquilo que se utiliza, desenvolve-se e o que não se utiliza, perde-se.

Estas poucas referências históricas, servem só para recordar que o fitness não é recente nos seus métodos, conteúdos e ferramentas, mas que as formas de comercialização e comunicação se tornaram capazes de lhes dar uma nova dimensão. Cabe aos profissionais e utilizadores dos ginásios filtrar a informação e fazer escolhas com bom senso e com menos influência de modas impostas por pseudo-criadores.

Mais informações históricas também podem ser encontradas no site do Eduardo Fonseca.

Referências:

Cheguei à Musculação Para me Recompor de Uma Cirurgia à Coluna Vertebral

As minhas primeiras experiências numa sala de musculação, datam do meu nono ou décimo ano de escolaridade, por volta de 1985 ou 1986, não posso precisar. Frequentava em a opção de Desporto na Escola Secundária Rodrigues de Freitas (então o maior liceu da Europa com mais de 5 mil alunos), quando um dia, me convenceram que estava a ficar forte com a prática desportiva que fazia nas aulas. Na escola tínhamos uns pesos antigos, feitos com umas barras de ferro e umas latas cheias de cimento que se assemelhavam a uma barra com discos fixos, ou melhor, um instrumento entre a barra com bolas (do circo) e as barras com discos que se encontram em todos os ginásios. Com esse instrumento testávamos a nossa força no final das aulas ou em desafios durante os intervalos das mesmas. Esses desafios levaram-me a passar de 9 flexões de braços no meu nono ano, para 77 flexões consecutivas no final do décimo ano de escolaridade. Um dia, um amigo que andava sempre com revistas de culturismo a impressionar os colegas, convidou-me para ir a um ginásio. Levou-me a um dos poucos ginásios da cidade do Porto e que possuía um ambiente muito restrito. Só podíamos frequentar um dos pisos do ginásio e utilizar determinado tipo de equipamentos. Devo dizer que não foi uma experiência muito motivante para mim, deixando uma imagem muito pobre e agressiva dos ginásios.

O tempo passou e em 1987 por uma deficiência numa apófise de uma vértebra e consequente espondilolistese, tive de ser submetido a uma cirurgia, à qual se seguiu um longo período de recuperação de quase nove meses, associada a uma crise de pensamento, de redefinição de objectivos pessoais que quase me deixaram numa depressão. Antes de ser operado eu jogava Andebol em campeonatos federados, futebol em campeonatos do INATEL com seniores e adorava actividade física. De repente ficava sem nada! Seguiu-se o afastamento dos companheiros que seguiam para a Universidade para fazer curso de Educação Física e fiquei eu agarrado à matemática e à condição de limitado pela coluna vertebral.

Foi então que, após vários meses, por influência de amigos ligados ao culturismo, me recomendaram que me inscrevesse num ginásio perto lá de casa (um dos 6 ou 7 ginásios existentes na cidade). A ideia não me agradava muito pelo receio dos pesos e sua possível má relação com as minhas costas e porque eu não gostava dos físicos dos culturistas. Mas, por outro lado poderia ser uma forma de eu me fortalecer e voltar a jogar futebol e andebol. Então, lá fui no ano de 1988 inscrever-me num ginásio que ainda hoje existe.

Fui bem recebido nesta instalação (o Ginásio Olímpico Martinez) com uma recepção pequena com um balcão branco, um sofá vermelho, umas prateleiras com proteínas e aminoácidos, a respectiva banca de cozinha e a batedora eléctrica. Tinha depois uma sala para artes marciais e aulas de grupo, e na cave, como era e ainda é comum nas grandes cidades: o ginásio de musculação.

Máquinas vermelhas: umas 10 ou 12 e bastantes pesos livres: banco de supino, banco de supino inclinado, banco para press de ombros, estrutura para agachamentos e muitas barras e halteres. As paredes decoradas com culturistas e os frequentadores eram exclusivamente homens. Aquilo ía ser duro!

Inscrevi-me sem o meu Pai saber com uns trocos que tinha agrupado e logo me preparei para um primeiro treino matinal. Começava aqui o gosto pelos treinos matinais de musculação (não sei bem porquê). O dono do ginásio era também a pessoa que fazia os programas. Contei-lhe que tinha sido operado à coluna, e que tinha jogado futebol e andebol e que naquele momento estava liberto pelo médico para fazer de novo actividade física. Lá me foi elaborando o programa que era um papel com imagens e uns quadrados onde ele escrevia a receita de séries e repetições. Essa folha eu viria a utilizar apenas mais uma ou duas vezes porque a rotina era fácil de memorizar. E estava eu lançado no reino da musculação.

Mais tarde comecei a interessar-me pelo assunto da musculação porque os resultados funcionais estavam a aparecer. Fui então em busca de ajuda, em busca de informação. Creio que, a primeira tendência de toda a gente é observar os melhores, os mais fortes, ver como eles fazem e tentar copiar. Ou seja, os tipos mais fortes do ginásio seriam provavelmente os mais conhecedores do assunto. Nada de mais errado. Porque são geneticamente bem dotados e os resultados aparecem com facilidade, porque tomam drogas e suplementos, ou porque têm muito tempo disponível. Mas quando descobrimos isso, é tarde.

Nos anos oitenta, não abundavam as revistas e não era fácil conseguir uma Flex ou uma Muscle & Fitness, cujas fotos eram bonitas, os artigos muito elaborados mas traziam pouca informação directamente aplicável ao treino. Se em 100 páginas tivessem 5, era imenso. Creio que ainda hoje ocorre algo similar.

Assim me perdi por várias metodologias de treino, que após os dois primeiros anos nos quais a evolução funcional é fácil para qualquer praticante, o progresso abranda significativamente. Nessa auto-orientação experimentei treinar ao estilo Arnold com 25 séries por grupo muscular, experimentei treinar de acordo com o campeão de culturismo do momento, experimentei treinos mais curtos e intensos ao estilo Lee Labrada ou Mike Mentzer, experimentei os treinos femininos na ideia de que, tendo as mulheres baixos níveis de testosterona e se conseguiam os resultados melhores do que os de alguns homens, então um treino feminino daria resultados. Mal eu sabia que elas iam buscar a testosterona a outro lado. Esta foi uma descoberta que me fez acordar para outro tipo de metodologias de treino.

Sabendo que as minhas referências de treino: homens grandes e fortes dos ginásios, revistas e livros de campeões estavam inundados de ajudas medicamentosas, fiquei algo desiludido e desanimado. Em cima disso, a minha família tinha ideias erradas acerca da musculação e também não me apoiava nas minhas práticas de levantamento de pesos.

Foi então que dei de caras com uma revista chamada “hardgainer” que trouxe mais uma referência para os meus treinos: os “hardgainers”, aqueles que têm muitas dificuldades em aumentar força e massa muscular. Ou seja, se seguisse os treinos que eles recomendavam, certamente iria melhorar bastante. Ainda por cima eu não era um hardgainer. Não era “easygainer”, mas tinha algum potencial.

Tanto a revista hardgainer como o livro Brawn, revolucionaram a minha forma de pensar a musculação, clarificando algumas dúvidas e confirmando algumas suspeitas, mas acima de tudo, trouxeram de novo um progresso significativo no treino. Os seus métodos solicitavam qualidade na execução técnica, treinar menos vezes por semana, trabalhar todo o corpo na mesma sessão, uma alimentação sem suplementos milagrosos, aumentar cargas como objectivo do treino e ainda por cima tinham por base algumas metodologias de uma era mais pura do levantamento de pesos. Foi de facto, um abanão na forma como estava a ver a musculação naquela época.

Coincide com esta fase o início da minha intervenção mais como monitor de musculação que lutava já com problemas para que os alunos terminassem os programas de treino de 90 minutos que eu lhes programava. Eu já tinha reparado que a maioria dos indivíduos paravam nos 75 minutos. Diziam que tinham de ir embora para casa.

Nesta fase, começo a ensinar musculação utilizando diversas metodologias, mas as mais marcantes são aquelas que eu chamaria: Pesos Livres, a científica, a Nautilus e Arthur Jones e agora um misto das coisas boas de todas essas fases que passei.

Houve um tempo em que só advogava os benefícios dos pesos livres, pois as máquinas que conhecia, não acrescentavam nada aos pesos livres. Passei outro período ao estilo NSCA, no qual, tudo o que não fosse publicação académica, não fazia parte do meu discurso: RMs, percentagens, pliometria, fase de força, fase de hipertrofia, período competitivo, etc. Tornei-me quase fanático por testes até um dia conhecer um homem chamado Jon Cossins, que me ensinou outras estratégias muito mais interessantes do que fazer testes. Esse período coincidiu com a utilização das máquinas Nautilus com as suas cames únicas permitiam de facto alternativas a considerar em relação aos pesos livres.

Acentuei então uma fase intensa de presença em congressos, viagens aos EUA, travei conhecimento pessoal e conversas muito interessantes com pessoas como Wayne Westcott ou Thomas Baechle. Tomei conhecimento com a indústria do fitness, fiquei a saber onde estava e para onde se movia o movimento dos centros de condição física.

De todos os locais e pessoas com quem trabalhei eu aprendi algo, mas algumas experiências eu não gostaria de repetir porque já não tenho paciência para ver as mesmas respostas (aquelas que nunca foram boas soluções) para os problemas de sempre. Desde que me iniciei que toda a gente sabe tudo de fisiologia e anatomia, embora eu continue sem saber porque é que tanta gente desiste de fazer actividade física como já desistiam nos anos oitenta. Uma das razões é certamente essa: os programas de treino e o tipo de acompanhamento dado nas salas de musculação é muito idêntico (pouco ou nada mudou). E a consequência já se sabe: se continuarmos a fazer aquilo que sempre fizemos, é provável que o resultado seja parecido ao que sempre foi. Desde 1988 que ouço falar em: treino para queimar, trabalhar supino inclinado para aumentar o “peito alto” (fui nessa conversa durante 3 anos, mas nada consegui ao experimentar em mim próprio), treino para massa, treino para definição, treino de manutenção, treino para tonificação, treino cardio, treino do tipo “se queres definir trabalha apenas no curso médio com altas repetições”, a resposta parecia estar sempre no treino e que ninguém falasse em genética, pois todos nos tentavam e tentam convencer que se temos a anca mais larga do que os ombros, o treino vai alterar imediatamente essa proporção e se quisermos definir os abdominais, basta fazer uns mil por dia e arrumamos com o assunto. O músculo é feito de proteína e água, por isso come muitos ovos e bebe muito leite se queres ser grande… E muitas outras teorias em que eu já não acredito.

Vejam as minhas reflexões como um filtro pelo qual eu vejo neste momento o mundo da musculação, um filtro formado pela minha cultura pessoal e pela cultura que eu bebi de experiências variadas e muito ricas das lides da musculação e dos ginásios. Podem com estas reflexões, encontrar pontos comuns com as vossas experiências, sentir alguns avisos dos caminhos errados que podem estar a seguir, pensar, reorientar o vosso caminho, saber que nem sempre o fitness foi assim, pensar melhor o futuro e se calhar não necessitarem de tanto tempo quanto eu necessitei para reconhecer que certas práticas não nos levam a lado nenhum. Façam as vossas reflexões, façam o diário da vossa viagem ao mundo dos pesos, do ferro, do treino de força, da musculação ou da mecanoterapia ou como lhe queiram chamar.

Se me tivessem dito quando comecei que a musculação estaria infestada de suplementos, drogas, treinos milagrosos, equipamentos que se mexem sozinhos e transformam o nosso corpo, de vendedores de treinos, eu teria tido mais cuidado e não teria experimentado muitas das coisas que experimentei.

Mas acima de tudo, aquilo que eu mais me arrependo é de não ter mantido melhores diários de treino e de experiências como profissional da musculação. No entanto, considerando o estado em que as coisas se encontram, se começar agora ainda irei reunir muitas informações interessantes.

Eu e a musculação

…eu treino pessoas…
…vejo o treino de musculação como um processo educativo de pessoas…
…movimentando os músculos contra resistências progressivamente mais elevadas e submetendo-os a um trabalho progressivamente mais intenso, procuramos induzir o aumento de força, resistência, flexibilidade e outros benefícios inerentes ao treino de musculação…
…o treino de musculação contribui para o aumento da capacidade de produção do corpo humano…
…um bom equilíbrio entre a capacidade de produção e a produção física das pessoas é fundamental para que os movimentos produzidos por estas lhes permitam melhorar a qualidade de vida no seu dia a dia…
…se conseguirem aumentar a capacidade de produção física de uma pessoa sem destruir o seu corpo, poderão contribuir imenso para a sua felicidade…