O meu treino semanal

São quase 40 anos, dos quais, muitos ligados à actividade física. Muitas experiências com actividades e exercícios onde os excessos se pagam, agora muito caros (na época, a regeneração dos 20 anos tudo permitiu): ombros com enorme desgaste articular e tendisoses devido ao Andebol, joelhos com tendinoses e cartilagens maltratadas devido ao futebol e um acidente a “tentar” esquiar.

Duas cirurgias (uma delas à coluna vertebral, mas em ambas as situações, a actividade física não foi responsável por dar origem à intervenção) condicionam também o tipo de actividades a realizar na actualidade. Relato-vos por isso um exemplo de excessos de movimento, cometidos durante pelo menos durante 3 anos, ou seja, o meu antigo programa de treino (NÃO FAÇAM ISTO!!!):

  • 4 horas diárias de várias modalidades práticas do curso de educação física que poderiam incluir actividades como 750m a nadar, vários sprints e saltos no atletismo, exercícios no solo ou aparelhos na ginástica e um desporto colectivo.
  • 4 treinos semanais de musculação com a duração de 45 minutos.
  • 1 corrida semanal desde o Monte dos Burgos ao actual monumento da rede de pesca em Matosinhos (desconheço a distância; recordo que tardava cerca de 30mins)
  • 2 treinos semanais de Futsal
  • 2 treinos semanais de Andebol
  • 1 jogo semanal de Andebol
  • 1 jogo semanal de Futebol de 11 em campos pelados em todas as condições climatéricas

Foram de facto enormes quantidades de movimento, cargas imensas em pouco espaço de tempo. Uns conteúdos por necessidade, outros por desconhecimento, outros por divertimento, que desequilibraram a balança. Excessos que vão acumulando lesões, dores crónicas que limitam. Por isso, este exemplo pessoal leva-me a recomendar que haja intensidade no treino mas com tempo de recuperação suficiente entre treinos para que se produzam resultados de acordo com os objectivos. É aquela velha questão: temos de estimular o corpo, mas não devemos destruí-lo durante o processo em que este procede às adaptações que nós pretendemos.

Na actualidade, as necessidades são outras, as limitações são algumas. Assim, o treino semanal, tem consistido aproximadamente no seguinte (nos últimos 3 anos):

  1. Sessão de natação de 1km (estilo crol) em menos de 25minutos;
  2. Uma corrida entre 4 a 8 kms (entre 20 a 40 minutos);
  3. Musculação, tendo por base exercícios generalistas como (2 sessões semanais de 30 minutos cada):
    • agachamento com o peso acima da cabeça (45 a 60kg),
    • thruster (45 a 50kg),
    • peso morto (75 a 100kg),
    • supino (60 a 80kg),
    • press de ombros em pé (45 a 50kg),
    • push press (45 a 50kg),
    • afundos nas paralelas (peso corporal + 10 a 20kg),
    • elevações na barra (peso corporal + 10 a 20kg),
    • elevações de tronco (15kg),
    • joelhos aos cotovelos,
    • remo (concept2).

Um total de 2h de treino efectivo semanal. Os pesos utilizados na musculação variam consoante a velocidade de execução nesse dia e o tempo em carga ou repetições estabelecidas como objectivo nesse dia. A flexibilidade é grande na rotina, sobretudo no que diz respeito às cargas e repetições, dependendo muito das actividades realizadas, da hora e níveis de energia. Esporadicamente poderá aparecer um evento que inclua futebol, um passeio de bicicleta ou uma caminhada ou corrida com um objectivo muito específico.

É apenas uma forma encontrada que tem ajudado a manter a condição física. É apenas um caminho que se vai adequando a uma pessoa em particular e aplica-se a este momento que decorre. Veremos quais os resultados e as consequências no futuro próximo. Não vivemos para treinar! Os resultados físicos complementam-se com sono, alimentação, meditação e atitude positiva. O grande objectivo com o treino é ser mais forte, mais resistente e mais flexível. Ter maior capacidade de produção e um bem-estar físico e mental que permita um bom rendimento no dia-a-dia.

Se desejarem ver alguns exemplos de rotinas de treino que utilizo frequentemente, acompanhem-me no twitter.

Balanças para o lixo!

Novembro 9, 2009 Paulo Sena 3 comments

A balança mede… Peso. As mulheres estão obcecadas pelo peso. Preferem ser gordas e pesar o valor exacto para os seus referenciais sociais. Se as amigas andam nos 60s elas querem 59. Se as amigas andam nos 80s querem 79. Incapazes de correr 1km sem desmaiar ou de subir 10 escadas a correr, o peso está acima de tudo. De tal forma que temos cada vez mais  mulheres tunning: fazem plásticas, colocam tudo o que é artificial e que não se enquadra no seu design. Depois têm vergonha daquilo que vêem e continuam sem parar, até surgirem graves complicações psicológicas. Pressão social? Falta de inteligência? Exageros? Desespero? As razões são diversas.

A mulher bela, acorda bela. E se cuida de si, fica… Brilhante! Mas… sem saúde ou vitalidade interior, a capa de pintura, o pushup, a cor preta da roupa, de nada valem para esconder a verdadeira origem da falta de beleza, a qual, na maioria dos casos não é genética (pois todos temos a nossa beleza com pontos fortes que devemos salientar e pontos fracos que devemos controlar).

Quem disse que uma mulher de 50kgs é mais sexy do que uma de 60? E se os 60 estiverem melhor distribuídos? É inegável que as pessoas que fazem exercício, têm melhor aspecto do que aquelas que não fazem. Nascemos com ombros mais largos do que as ancas ou ancas mais largas do que os ombros, situação que altera bastante a nossa geometria e a forma como devemos escolher a nossa roupa para equilibrar a nossa figura. O exercício não altera a largura dos ossos de forma a alterar essas proporções, mas os músculos mais fortes, com melhor tónus muscular, melhoram a postura, permitem que o nosso corpo se apresente de outra forma mesmo estando descoberto de roupas sofisticadas e pinturas artificiais.

Quando tentamos perder peso de forma rápida, aquilo que ocorre é sobretudo uma perda de músculo. Isso significa que perdemos capacidade física, capacidade para gastar mais calorias quer em movimento quer em repouso. O processo de perda de gordura é lento e progressivo.

A gordura em excesso é o problema, não são dois ou três quilos que se consideram acima dos valores estabelecidos por tabelas de referência americanas. De que vale ter o peso dito adequado à nossa estatura, se a percentagem de gordura anda pelos 28%? De que vale ter o peso certo se a maioria das pessoas não consegue adivinhar o nosso peso? Mas… Conseguem verificar se estamos com bom aspecto, conseguem verificar se a pele está bonita, se a cara espelha alegria, se a postura é altiva e confiante. De que vale ter o peso certo se passamos fome e temos um metabolismo lento. Quanto menos comemos, mais o corpo abranda os seus gastos, tornando-se preguiçoso, trabalhando com o mínimo de combustível possível. Isso não é nada bom para quem quer perder gordura e ser mais saudável.

É muito fácil perder peso. Mas o mais difícil é perder gordura. E mais difícil ainda é manter o peso, manter uma boa percentagem de gordura.

Durante as perdas rápidas de peso, como não damos tempo ao corpo de se adaptar, aparecem a flacidez muscular (recuperável com esforço físico e cargas adequadas) e as estrias que ficam como registo permanente das asneiradas que fizemos. Assim vamos perdendo o brilho, o nosso bom aspecto na luta por perder 2 ou 3 quilos. Se repetirmos o processo 4 ou 5 vezes num ano, teremos o nosso corpo completamente transformado em 10 anos. De facto, poderá ficar a “encaixar-se” na roupa da moda, mas certamente estará fora de moda, fora de forma, de aspecto velho, usado, maltratado.

E que tal um aparelho de medir a alegria? Que tal um aparelho para medir as pregas de gordura? Que tal ser capaz de nadar 500m, correr 50m à máxima velocidade, saltar sobre objectos com a altura da cintura, fazer algumas flexões de braços e elevar o corpo pendurado numa barra… Poucas manequins profissionais conseguem, a maioria das mulheres que conseguem fazer coisas destas não têm a melhor relação peso/estatura…

Em vez de peso, porque não pensamos mais em reduzir a percentagem de gordura? Em vez de balança, porque não apalpamos as nossas pregas de gordura?

  • Nunca passem fome!
  • Nunca saltem refeições!
  • Bebam muita água!
  • Comam de tudo!
  • Façam exercício!
  • Sejam inteligentes!*

Acordem gente! Trabalhem os vossos músculos a sério. Pelo menos 30 minutos intensos 2 a 3 vezes por semana. Alimentem-se de forma equilibrada. Durmam mais. Divirtam-se e tenham uma atitude positiva e verão que o corpo se transformará por completo! Adicionalmente… Vistam uma roupa que se adeque à vossa geometria corporal em vez de procurarem “encaixar” o corpo na roupa da moda.

*A condição física depende muito do corpo. Mas o estilo de vida, depende da nossa cabecinha e todos os esforços físicos serão em vão se não tivermos uma atitude correcta face ao nosso corpo. Isto ocorre independentemente do número de treinos ou horas que passamos no ginásio.

Dores musculares tardias

Outubro 30, 2009 Paulo Sena 3 comments

A relação entre o exercício físico, dano muscular e os mecanismos fisiológicos responsáveis pela etiologia da DMIT ainda não são completamente conhecidos (Foschini , Prestes, e Charro, 2007).

Dores musculares, dor miofascial, mialgia… São termos utilizados para as dores musculares. Não podemos viver sem músculos. Eles servem para todos os movimentos internos e externos do nosso corpo. Puxam, empurram, mantêm-nos de pé. Eles são… O motor do nosso corpo! Até o coração é um músculo! Temos mais de 600, grandes e pequenos.

O maior músculo do corpo humano é o Grande Glúteo (situado no traseiro), muito “abandonado” pela maioria das pessoas. Por isso dá tanta preocupação às mulheres. O que elas não sabem é que, por ser tão grande, é também muito forte e suporta cargas elevadas. Portanto, se quiserem que ele reaja, terão de o submeter a um estímulo adequado, suficientemente forte para se transformar. Isso pode ser realizado com movimentos simples como grandes flexões de pernas, as quais, por vezes, podem como qualquer outro exercício provocar dores musculares.

Embora as teorias abundem, não sabemos fisiologicamente porque ocorrem essas dores musculares tardias, mas sabemos que ocorrem:

  • Quando fazemos movimentos aos quais não estamos habituados. Mesmo alguém que treine com muita regularidade pode ter dores musculares no dia seguinte a ter efectuado exercícios diferentes dos habituais. Por exemplo: um nadador de alta competição que efectue um treino de hóquei em campo, terá dores musculares no dia seguinte. E certamente serão dores musculares severas.
  • Quando realizamos muitas contracções excêntricas, ou seja, quando os nossos músculos se contraem e as suas extremidades se afastam. Quando se realizam movimentos de travagem mais intensos, produzem-se habitualmente mais dores musculares nos dias seguintes às actividades.
  • Quando a carga é demasiado intensa em relação àquilo a que o corpo está habituado.
  • Quando a regularidade no exercício faz com que os períodos de aplicação da carga sejam demasiado espaçados. Ou seja, quando se treina… De vez em quando.
  • Quando voltamos de férias e regressamos ao nosso programa de actividade física…

No treino personalizado o professor ou treinador tem um conhecimento profundo do aluno, no caso das aulas de grupo isso já não ocorre. As cargas são assim estabelecidas para a média dos alunos. Aliás, as estatísticas, as médias, as probabilidades operam uma importância imensa na nossa sociedade (talvez superior à da matemática que nós conhecemos). Embora se procure adaptar as doses dentro do possível, sempre nos deparamos com pessoas que se afastam da norma, quer pela sua aptidão física, quer pela sua regularidade nas aulas, quer pelo seu empenho variável (ora de forma intensa, ora de forma aligeirada) que se traduz numa intensidade variável de estímulos.

Qualquer indivíduo que tenha alguma experiência com actividade física já passou pela sensação de ter dores musculares tardias. Isso ocorre quer nas actividades orientadas como podem ser os treinos desportivos, aulas de educação física ou actividades de ginásio. Mas também ocorre, com a chamada actividade física de tipo ocupacional, que deriva da realização do trabalho ou dos papéis sociais.

Com o passar dos anos, a aptidão física das crianças e jovens em geral, tem vindo a diminuir. Os jovens estão cada vez mais obesos e sedentários. Daí que os professores de educação física, se vêem obrigados a reduzir as cargas, as doses habituais de outrora (5 ou 10 anos atrás) para os seus alunos. Ou seja, cada vez exigimos menos, chegando ao ridículo de solicitar a alunos do Ensino Secundário tarefas como a realização de 3 flexões de braços, com a consciência que esse é um desafio de 70% do máximo de muitos indivíduos.

O desafio que se depara aos profissionais do movimento, é o de conseguir equilibrar o Princípio da Individualidade Biológica, com o Princípio base do exercício físico denominado: Princípio de Sobrecarga.

A tolerância ao esforço dos indivíduos varia imenso, devido aos hábitos de conforto que possuem, portanto é comum, os jovens incomodarem-se com solicitações mínimas que nem se podem considerar estímulo físico pelo facto de nem sequer os fazerem entrar na chamada Zona Alvo de Treino. A questão está em saber quais as verdadeiras reclamações dos alunos e aquelas que simplesmente são um reflexo da inactividade habitual desses jovens.

O treino é um estímulo. O nosso corpo tem de fazer algo ao qual não está habituado para ser obrigado a transformar-se, a modificar-se, tornando-se mais forte, mais resistente, mais flexível, de forma que tenhamos um maior potencial para realizar outras tarefas.

O exercício pode ser visto como um medicamento sem efeitos secundários. Mas as doses devem ser adequadas. Nem demasiado fracas, nem demasiado fortes. Mas as dores musculares ligeiras nas horas seguintes a uma actividade intensa, são normais e dão-nos aquela sensação agradável de ter treinado. Claro que, quando são violentas após um treino e se mantêm com a mesma intensidade nos treinos subsequentes, é porque algo está errado na dose de exercício ou na frequência do mesmo.

Sabemos que as dores musculares costumam aumentar de intensidade até ao 2º ou 3º dia após a actividade, mas depois desaparecem de repente e, embora se especule muito com alongamentos, ingestão de café ou outras acções, não existe uma acção comprovada que evite a intensidade das dores musculares. No entanto, ao conhecermos os motivos pelos quais elas ocorrem, podemos: dosear as cargas de forma progressiva, ser regulares na prática dos exercícios, não alterar movimentos e actividades de forma muito frequente. E… Pensar que as dores têm de ocorrer de vez em quando e podem ser sinal que nos empenhamos no treino. Desde que não sejam incapacitantes, diz-nos a experiência com jovens, adultos e idosos, que… São sinal de vida, de reacção do corpo a um estímulo. Se pensarmos que os níveis de condição física da população estão tão baixos e que o sedentarismo é a causa de mortalidade número um no mundo, vamos agradecer umas dorzitas saborosas de vez em quando.

Referências Bibliográficas

Foschini , D., Prestes, J. e Charro, M.A. (2007). Relação entre exercício físico, dano muscular e dor. Rev. Bras.Cineantropom. Desempenho Hum. 9(1): 101-106.

O valor do nosso corpo

Outubro 25, 2009 Paulo Sena 3 comments

O nosso corpo é a nossa casa, mas não é apenas um objecto. Tem vida e está em constante mutação. Pode ser uma ferramenta que necessita estar equilibrada para que a nossa capacidade de produção esteja sempre a 100%. Para isso deve ser tratado como algo especial, com exigência e gratidão.

Muitos colegas, profissionais da actividade física, entristecem-me por não acreditarem convictamente na relação do corpo com a saúde. É pena constatar a sua relação com a sua própria profissão, a relação com o seu próprio corpo em degradação, a forma como deixam de transmitir princípios de treino e a forma como se inibem de falar de saúde, numa sociedade em que…

o corpo dos 20 aos 30 é apenas uma imagem mais ou menos camuflada por roupas e pinturas, no qual as pessoas vivem e que aguenta todo o tipo de maus tratos pela sua juventude e pela abundante capacidade regeneradora que ainda possui;

dos 30 aos 40 passa a ser mais camuflado ainda, e inicia-se como um meio para produzir, para facturar, para trabalhar, iniciando-se a percepção da sua utilidade funcional, passa a ser um meio para conseguir certas coisas, inicia-se a tentativa de recuperar tudo o que perdemos dele e algumas pessoas passam a viver para isso, gastando grande parte do tempo com o seu cuidado, é nesta altura que começam os desportos de fim-de-semana as preparações sazonais para a praia;

dos 40 aos 50, assume-se definitivamente que o corpo tem uma função, vivemos com ele, necessitamos dele, faz-nos falta para desfrutar ao máximo da vida, pára-se de fumar nesta idade, iniciam-se as primeiras alterações da alimentação, recordamos os exageros, o abuso e a falta de equilíbrio que tivemos no seu tratamento, procura-se prolongar a juventude, preocupamo-nos com a saúde e todo o tipo de índices (pressão arterial, peso, perfil sanguíneo…);

dos 50 em diante, já só queremos estar sem dor e viver um dia-a-dia de qualidade, percebendo que, afinal não fazia sentido trabalhar tanto destruindo o corpo para tentar desfrutar do dinheiro que hipoteticamente conseguimos na juventude para na idade de reforma não podermos desfrutar dele.

Este corpo único que temos, não pode ser tratado como um objecto sem vida que cobrimos de roupas, que limpamos com os produtos anunciados na tv, camuflado com as pinturas cada vez mais densas (utilizadas por mulheres e homens também), esculpido (como se isso fosse possível), exibido, escondido, enfeitado… E de vez em quando, tomamos consciência de que está vivo quando têm fome, dor, calor, frio…

O corpo existe e não devemos negá-lo. Os corpos são diferentes. Cada um tem seu potencial. Devemos ter consciência disso. O primeiro passo para ter um corpo belo, é aceitar todos os seus pontos fortes e fracos. O passo seguinte é explorar todo o seu potencial controlando as suas fraquezas com as ferramentas de que dispomos para que os outros não as percebam como tal.

O sucesso de um corpo que permanece produtivo, ao nosso serviço, com vida própria, que transpira energia e vitalidade qualquer que seja o seu perfil estético, está no equilíbrio, na procura do melhor programa de treino, no estilo de vida mais adequado para as nossas necessidades. Não reside (pelo menos a longo prazo), no culto excessivo do físico (ninguém necessita mais de 3h semanais de exercício físico), numa vida dedicada ao corpo. O sono, a alimentação, a atitude perante a vida e a escolha de um tipo de movimento que o estimule, que lhe aumente o potencial ou simplesmente mantenha a sua funcionalidade.

A educação física vista da minha janela. Versão 1.0

A minha janela é um local condicionado por imensas aulas de educação física leccionadas desde 1995 a mais de mil alunos, em mais de dez escolas diferentes, desde o ensino pré-escolar até ao ensino superior, em meios urbanos e rurais, exercendo paralelamente à função de professor, outras oito funções escolares, que pouco têm a ver com o acto de educar fisicamente os alunos.

O que é?

A educação física (EDF) é a educação através do movimento, uma ajuda na preparação para a vida através de movimentos organizados e orientados. Está inserida no Departamento de Expressões dentro das escolas Nacionais. Esse departamento é habitualmente uma área de menor importância pois as escolas estão ainda voltadas  para um saber livresco, centrado no professor, fundamentalmente com o intuito de formar indivíduos a fim de serem professores universitários ou ilustres académicos.

A EDF está dentro do Departamento de Expressões, uma área em muitas escolas negligenciada em vez de estimulada, apesar de muitos de nós sabermos que faz a diferença no mercado de trabalho, que distingue determinados valores e talentos. Talvez uma visita ao site TED para escutar algumas palestras sobre a forma como aprendemos, possa mudar a visão afunilada da educação escolar.

Embora a EDF tenha um forte componente de recreação física, a sua base é a educação. Na sua origem como disciplina, a EDF colocou regras nas práticas de rua. Mas a disciplina hoje tem muitos concorrentes ao nível dos media e do lazer. Estamos perante uma sociedade com muita oferta de actividades, situação que provoca frustração por parte dos jovens na escolha de apenas uma actividade ou duas actividades, dentro dos seus horários demasiado preenchidos. Para ter o efeito recreativo, a EDF teria de ser personalizada a cada caso, pois cada indivíduo tem as suas preferencias e o que diverte, descontrai uns, coloca stress sobre outros alunos. Leiam uma abordagem sobre a Recreação vs. Exercício físico.

Objectivos

Ao longo dos anos a educação física foi sofrendo alterações nos seus conteúdos. As culturas dos povos influenciaram o modelo de educação física em cada civilização, em cada país. Os Programas Nacionais de Educação Física, apresentam para o 3ºciclo, os seguintes objectivos gerais, na perspectiva da melhoria da qualidade de vida, da saúde e do bem-estar:

  • Melhorar a aptidão física elevando as capacidades físicas de modo harmonioso e adequado às necessidades de desenvolvimento do aluno.
  • Promover a aprendizagem dos conhecimentos relativos aos processos de elevação e manutenção das capacidades físicas.
  • Assegurar a aprendizagem de um conjunto de matérias representativas das diferentes actividades físicas, promovendo o desenvolvimento multilateral e harmonioso do aluno, através da prática de:
    • As actividades físicas desportivas nas suas dimensões técnica, táctica, regulamentar e organizativa.
    • As actividades físicas expressivas (danças), nas suas dimensões técnica, de composição e interpretação.
    • As actividades físicas de exploração da Natureza, nas suas dimensões técnica, organizativa e ecológica.
    • Jogos tradicionais e populares.
  • Promover o gosto pela prática regular das actividades físicas e aprofundar a compreensão da sua importância como factores de saúde e componente da cultura, na dimensão individual e social.
  • Promover a formação de hábitos, atitudes e conhecimentos relativos à interpretação e participação nas estruturas sociais no seio das quais se desenvolvem as actividades físicas, valorizando:
    • A iniciativa e a responsabilidade pessoal, a cooperação e a solidariedade;
    • A ética desportiva;
    • A higiene e a segurança pessoal e colectiva;
    • A consciência cívica na preservação das condições de realização das actividades físicas, em especial a qualidade do ambiente.

No Ensino Secundário, pede-se aos alunos os seguintes objectivos nas áreas obrigatórias:

  • Cooperar com os companheiros para o alcance do objectivo dos Jogos Desportivos Colectivos, realizando com oportunidade e correcção as acções técnico-tácticas, em todas as funções, conforme a posição em cada fase do jogo, aplicando as regras, não só como jogador mas também como árbitro.
  • Compor, realizar e analisar esquemas individuais e em grupo da Ginástica (Acrobática, Solo, Aparelhos ou Rítmica), aplicando os critérios de correcção técnica, expressão e combinação das destrezas, e apreciando os esquemas de acordo com esses critérios.
  • Realizar e analisar provas combinadas do Atletismo (saltos, lançamentos, corridas e marcha) em equipa, cumprindo correctamente as exigências técnicas e do regulamento, não só como praticante mas também como juiz.
  • Apreciar, compor e realizar sequências de elementos técnicos da Dança em coreografias individuais e de grupo, correspondendo aos critérios de expressividade, de acordo com os motivos das composições.

Os objectivos das áreas de opção, são os seguintes:

  • Realizar com oportunidade e correcção as acções técnico-tácticas de Jogos de Raquetas, garantindo a iniciativa e ofensividade em participações individuais e a pares, aplicando as regras não só como jogador mas também como árbitro.
  • Realizar com oportunidade e correcção as acções do domínio de oposição em Jogo formal de Luta ou Judo, utilizando as técnicas de projecção e controlo, com oportunidade e segurança (própria e do opositor) e aplicando as regras, quer como executante quer como árbitro.
  • Utilizar adequadamente os patins, em combinações de deslocamentos e paragens, com equilíbrio e segurança, em composições rítmicas individuais e a pares (Patinagem Artística), cooperando com os companheiros nas acções técnico-tácticas em jogo de Hóquei em Patins, ou em situação de Corrida de Patins.
  • Praticar jogos tradicionais populares de acordo com os padrões culturais característicos.
  • Realizar actividades de exploração da Natureza, aplicando correcta e adequadamente as técnicas específicas, respeitando as regras de organização, participação e especialmente de preservação da qualidade do ambiente.
  • Deslocar-se com segurança no meio aquático, coordenando a respiração com as acções propulsivas específicas das técnicas seleccionadas.

Nem vou discutir estes objectivos mais específicos, porque como sabemos os profissionais desta área, quando nos centramos nos aspectos técnicos das modalidades, necessitamos de tempo de prática para que os alunos repitam de forma consciente e orientada os gestos desportivos, a fim de se tornarem minimamente bem sucedidos (ex: realizar 5 acções correctas em 10 tentativas).

As modalidades que fazem parte dos conteúdos leccionados, são as tradicionais, aquelas mais praticadas e que, as federações respectivas conseguiram incluir nestes programas. Os alunos vão reclamando dos conteúdos e nós vamos verificando o grau de insucesso no desempenho das tarefas, pois o número de repetições é reduzido para que alguma vez sintam algum grau de sucesso nos lançamentos ou nos passes. E como tal, os alunos, devido ao reduzido tempo de exercitação numa tarefa, rapidamente abandonam a técnica e as instrucções transmitidas pelo professor, porque nenhuma técnica aplicada quatro ou cinco vezes permitirá a alguém ser proficiente naquilo que faz. Eu também faria o mesmo na crença de que estavam errados por não conseguirem o seu objectivo.

Como professores, fazemos o nosso melhor para que, alunos cujo único tempo de actividade física é aquele disponibilizado na escola, sejam capazes de passar pela experiência da prática desportiva (ou seja, acabam por realizar a dita recreação física em alguns casos). Sim, porque a grande maioria dos alunos não é fisicamente activo e não compensa os condicionalismos de tempo, espaço, material e climático que a escola lhes coloca, com actividades em casa ou em clubes. Tentamos cumprir as preocupações operacionais nas situações de aprendizagem e de treino:

  1. As actividades devem ser inclusivas.
  2. Proporcionar muito tempo de prática.
  3. Proporcionar desafios com objectivos alcançáveis, mas não demasiado fáceis.
  4. Proporcionar uma carga física “moderada a intensa”.
  5. Proporcionar actividades agradáveis.
  6. Proporcionar actividades variadas em termos motores e de tipo de esforço.
  7. Proporcionar um ambiente que promova cooperação e entreajuda, respeito pelos outros, sentido de responsabilidade, a segurança e o espírito de iniciativa.

Disciplina diferente

A disciplina de EDF não é melhor nem pior do que as outras disciplinas. A partir do momento que está incluida no curriculo, adquire o mesmo estatuto, embora eu coloque sérias dúvidas se deveria ter o mesmo peso nas médias dos alunos do Ensino Secundário quando a formação de base não é a actividade física. Embora a disciplina contribua indirectamente para o melhor rendimento cognitivo dos alunos, para a sua qualidade de vida e equilíbrio que permite obter melhores resultados escolares.

A EDF é uma actividade prática, onde os alunos não estão sentados, não decoram para fazer testes. Aqui, aprende-se fazendo. O professor necessita dar mais enfase às suas características de líder do que às suas características de gestor, pois lideram-se pessoas, gerem-se coisas. A missão controladora na EDF é importante, mas os condicionalismos e as ocorrências durante as actividades são tantas, que não há planificação que valha. O rumo tem de ser constantemente alterado em termos de organização das actividades, as tarefas de motivação dos alunos, de dinâmica de grupos, de feedbacks específicos, são muito mais relevantes do que uma meticulosa preparação antecipada dos conteúdos exactos da aula, dos tempos de exercitação e de repouso, etc. Um dia de mau tempo, um aluno irritado, uma má relação entre dois colegas de um grupo, podem fácilmente destruir o melhor plano de aula. Antes da aula, o pensamento deverá ser estratégico em vez de mecânico e transmissor de conhecimentos. É necessário pensar nos melhores exercicios, na melhor combinação de alunos dos grupos, nas actividades alternativas para o caso de alguns exercícios não resultarem, como dinamizar melhor o grupo passivo e desactivar os indivíduos mais rebeldes, como conversar com os líderes da turma, quais as melhores músicas para a dissociação cognitiva nas tarefas mais difíceis de condição física e repetitivas necessárias para a consolidação de gestos técnicos. Durante a aula, as decisões têm de ser rápidas e eficazes em vez de eficientes. A experimentação tem de ser constante.

Por exigencias do ambiente que se instalou no Ensino Secundário, muitos dos professores de educação física, estão a recorrer a testes escritos para avaliarem o domínio cognitivo da disciplina. Creio até que nos tornamos demasiado teóricos como defesa para a acusação que nos fizeram durante anos (gente sem grandes conhecimentos… tipos do fato de treino… montes de músculos…). Obviamente é uma avaliação puramente teórica e não aplicada na prática. Costumo optar por trabalhos realizados em ambiente de tecnologias da informação e comunicação no âmbito do Plano Tecnológico da Educação, para integrar os alunos através da criação de grupos de trabalho diversificados, para ocupação aletrnativa nos dias em que o clima não permite realização de aula, para melhorar a capacidade de pesquisa, selecção e utilização da informação mediante condicionalismos de tempo e conteúdos. É apenas uma opção com vantagens e desvantagens, mas extremamente enriquecedora e futurista.

A disciplina de EDF tem o problema do movimento, os alunos não têm cadeiras para se sentarem ou carteiras para lhes limitar os movimentos. O ênfase da disciplina é sobretudo de natureza biológica, embora as exigências cognitivas sejam enormes e os alunos com reconhecido mérito a esse nível tenham dificuldades em decidir o que fazer perante problemas simples de jogo 2×1, ou para dividir um campo em 4 partes iguais, ou para realizar uma classificação individual ou mesmo para organizar no papel uma pequena liga desportiva dentro da turma. Claro que os processos biológicos não podem ser acelerados e as repetições de estímulos de exercício não podem ter a mesma duração das repetições e duração de estímulos cognitivos com vista à memorização. Ao nível do treino, 2 a 3 sessões intensas por semana poderão ser uma boa dose para a maioria dos indivíduos, enquanto que o estudo de uma matéria teórica poderá ter muitas mais repetições de maior duração. Na primeira situação, se eu falhar um estímulo (treino), não será aconselhável (pois o corpo irá ser destruido durante o processo de recuperação e não serão obtidos melhores resultados) efectuar dois treinos consecutivos. Na segunda situação, se eu faltar a uma aula teórica, posso dedicar mais algum tempo ao estudo e recuperar de certa forma o tempo perdido. Assim, não me cansarei nunca de referir a importância da regularidade nas aulas de educação física.

Condicionalismos

As características da EDF, fazem com que os professores da disciplina entrem com alguma naturalidade na formação cívica, no estudo acompanhado ou na área de projecto, que façam substituições aos colegas de outras disciplinas, mas os outros profissionais recusam-se na generalidade a efectuar substituições nas aulas de EDF, mesmo recorrendo a um plano de aula bastante simples. Seja pelo incómodo meteorológico ou pelo conforto, eu tenho a certeza que tem muito a ver com a tal relação entre liderança e gestão. O sucesso de uma aula de EDF reside menos no planeamento meticuloso e muito mais na dinâmica e acções durante a aula.

As limitações da disciplina de EDF manifestam-se:

  • aptidão física dos alunos
  • cultura desportiva dos alunos
  • dimensão das turmas
  • condições materiais
  • instalações
  • meteorologia
  • sono e alimentação dos alunos
  • género e características comportamentais dos alunos

Benefícios

Os benefícios da actividade física (a qual, quando passa a regular, tratamos por exercício físico por respeitar os princípios do treino), têm essencialmente a ver com a melhoria da qualidade de vida de um indivíduo, o aumento do seu potencial físico e psicológico, da sua produtividade, que depois se traduzem não no prolongar da juventude ou da vida, mas acima de tudo no melhor aproveitamento dos dias de vida.

Os benefícios mais evidentes são ao nível da funcionalidade física, melhoria da força, resistencia e flexibilidade, melhoria da eficiência cardiopulmonar, melhoria da composição corporal (diminuição da percentagem de gordura), redução de riscos de traumatismos musculares e esquléticos pelas melhorias funcionais do corpo, que se torna capaz de melhor se adaptar e resistir aos desafios ambientais.

A melhoria da postura e as alterações estéticas que advêm das alterações funcionais e melhoria da performance, são também, um benefício muito procurado por todos os que mantêm um programa de exercício físico.

Ao nível psicológico, a EDF pode contribuir para melhorar o humor, redução do stress e da capacidade de lidar com o stress, melhoria da auto-estima, orgulho por alcançar objectivos físicos, melhoria da satisfação consigo próprio, melhoria da auto-imagem, aumento das sensações de energia, aumento da confiança nas capacidades físicas e um decréscimo dos sintomas associados com a depressão, são apenas alguns dos benefícios que o exercício físico poderá proporcionar ao nível mental.

No que diz respeito às relações interpessoais, a disciplina de EDF tem os conteúdos ideais para melhorar as relações entre os alunos, para criar grupos capazes de alcançar objectivos, coordenando os seus esforços de acordo com as limitações e desafios que se vão colocando nos jogos desportivos colectivos.  A interacção com diferentes tipos de pessoas, vai ensinando os alunos a lidar com aspectos que no futuro estarão patentes nos seus empregos, nos projectos de trabalho que certamente irão ter pela frente. De resto, é cada vez mais comum, utilizar a actividade física, os desafios físicos para trabalhar determinadas competências nas empresas. Expressões como outdoor training, ou coaching, são cada vez mais comuns associadas com a actividade física.

Para obter os beneficios temos de respeitar os principios do treino. Se não obrigarmos o nosso corpo a fazer algo ao qual não está habituado, ele não terá nenhuma razão para modificar as suas estruturas (ossos, músculos, tendões…) e os seus sistemas de alimentação (respiração, circulação, disgestão…). Mais uma repetição, ou realizar as mesmas repetições em menos tempo, são esforços que temos de fazer se queremos que o corpo seja mais forte, mais resistente e mais flexível para lhe darmos outra utilidade que não seja apenas estar sentado. Custa, é verdade. E a tolerancia ao esforço de cada um implica objectivos distintos para pessoas distintas, mas o princípio é o mesmo: exigir um pouquinho mais do que o habitual ao nosso corpo. Se houver apenas uma aula por semana e faltarmos uma vez por mês, os resultados não serão muito afectados, mas faltar uma vez a cada duas semanas começa a comprometer os resultados.

Avaliação

Avaliação em EDF, tem uma forte componente subjectiva, a qual vem nos últimosanos sendo apagada por exigências em ser o mais específico possível, chegando em alguns casos, a ter avaliações práticas em que o aluno dispoe de 10 tentativas num lançamento (se acerta 5 tem a nota média, se acerta 10 tem a nota máxima). Isto torna o ensino extremamente injusto para os alunos e prejudica imensa gente. No entanto a pressão tem chegado por parte dos defensores da minoria de alunos que apenas foram estimulados do ponto de vista cognitivo e que chegam à sua adolescência com imensos problemas motores. No calor das médias esquecemo-nos dos benefícios e do valor da disciplina de EDF. No meu entender, a melhor e mais justa forma de avaliação é contínua e exige que o professor coloque uma nota do aluno por cada aula realizada, deixando um período de testes práticos formais para retirar alguma dúvida existente. Assim, sem que os alunos saibam, vai-se definindo a sua avaliação de uma forma mais justa, não estando dependente de testes, realizados num dia bom ou mau, pois como sabemos a disciplina tem forte componente biológica e no caso dos desportos colectivos, também se reflecte a componente social (se o comanheiro é bom, facilita, se é mau, complica). Como professores, nunca agradaremos a todos e nem deveremos fazê-lo, sob pena de não agradar a ninguém. Habitualmente dividida em 3 domínios, saber-fazer, saber-estar e domínio cognitivo, a avaliação dos alunos está bastante dependente dos estímulos recebidos em anos anteriores e sobretudo da condição física que vão adquirindo e que condiciona a realização de todos os gestos técnicos. O aluno que não consegue fazer um certo número de flexões de braços, dificilmente poderá ou deverá ser colocado em tarefas para realizar a posição facial invertida. Um aluno que não corra regularmente nas aulas de forma contínua durante alguns minutos, não deverá realizar uma prova de corta-mato. Alguém sem força nos braços não pode servir no voleibol. A condição física é a base para a realização de muitas tarefas e protege-nos do risco de lesão. Outra questão importante é a da repetição. Recordo a modalidade de natação, extremamente técnica e onde a monotonia se pode instalar facilmente, mas onde a repetição dos movimentos é imperiosa para melhorar, para deslizar, para nadar. Ocorre o mesmo em todas as modalidades. Se ninguém souber realizar um passe por cima da cabeça a duas mãos no voleibol com algum acerto, dificilmente poderemos ter outro aluno a realizar um remate. Se já dominamos a bola de futebol, só depois podemos passar a exercícios com a bola e um companheiro para exercitar o passe que é a forma de comunicação interpessoal no futebol. Isso exije repetição, isso leva tempo, isso necessita de tempo de prática e pouco tempo de espera em filas. Na ansia de transmitirmos muitos conteúdos, ou melhor, para fazer os alunos passarem por muitas experiências, idealizamos muitos exercícios condicionados por apenas 2 tabelas ou 1 baliza e rapidamente confirmamos que as filas são demasiado grandes e apenas permitem uma repetição a cada 2 ou 3 minutos, indo contra princípios de treino e de aprendizagem técnica.

Na EDF temos de passar rapidamente da teoria à prática, do ideal ao real, utilizando imediatamente aquilo que foi aprendido. Se utilizarmos o que aprendemos no dia-a-dia, iremos compreender melhor a condição física e as actividades desportivas. Enquanto que, em muitas disciplinas, a maioria dos conteúdos só mais tarde veremos a sua aplicação, os princípios do treino, a condição física, a organização de pessoas no espaço e outros conteúdos da nossa disciplina, podem ser imediatamente utilizados. Um bom aluno na disciplina de educação física, chega sempre a horas, cumpre as indicações do professor, empenha-se nas actividades, colabora com os colegas, respeita os outros e procura melhorar a sua condição física e desempenho técnico. Quando assim é, progride e evolui. Vejam o que pode ser uma definição da  pessoa fisicamente educada.

Esta é apenas uma reflexão da educação através do movimento que ocorre na actual escola. Os objectivos, os seus conteúdos, as diferenças em relação a outras disciplinas, fazem com que a educação física esteja suijeita a uma série de condicionalismos que por uma lado a enriquecem bastante e por outro tornam complicada a tarefa de avaliar os alunos. Mas restam sempre os benefícios a médio prazo, mas sobretudo a criação de hábitos para um futuro estilo de vida mais equilibrado dos alunos.

A actividade física, pelas suas características, pelas suas ferramentas, tem uma importante contribuição a dar à formação dos alunos. Quer seja proporcionada nas escolas, nos clubes ou nos ginásios, apresenta benefícios educativos pela constante adaptação à mudança, pela tomada de decisão melhorada, pela resolução rápida de problemas. Melhora os relacionamentos entre as pessoas, ensinando os jovens a serem tolerantes, firmes, líderes de acordo com as situações. Ao nível da empregabilidade, é sabido que a inovação, criatividade, capacidade de liderança e capacidade de resposta sob pressão, são competencias bastante procuradas pelas empresas.

A educação física possui um elevado valor intrínseco independentemente da sua contribuição para uma média final de curso. E… É tão evidente neste mundo em constante mudança!